Stranger Things Version
Wicked Academy

Auditório


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Mensagem por The Vanity em Sex Jun 05, 2015 6:10 pm

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Staff

Auditório
O auditório do instituto tem o tamanho e a estrutura parecidos com o de uma sala de cinema. As paredes são isoladas acusticamente, para melhor aproveitamento do espaço e reverberação de som natural, e o teto é equipado com um projetor, holofotes e luzes de vários estilos diferentes, além de um sistema de auto-falantes profissional. Ele comporta cerca de duzentos alunos por vez em suas cadeiras de couro reclináveis super confortáveis, dispostas em estilo escada para que todos tenham visão perfeita do palco. Este é feito de madeira, e pode ser acessado por duas escadas baixas, uma em cada extremidade; as cortinas que o escondem são feitas veludo azul marinho pesado e luxuoso. A parte dos bastidores contém um camarim conjunto feminino e um masculino, onde os atores podem guardar seus pertences e figurinos. Aqui acontece as aulas de Teatro.



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Mensagem por Roman Weidenfeller em Qui Jul 16, 2015 9:05 pm

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Diretores - Vice

Theater
The theater is like riding a bike


A
promessa de um novo dia surgia com o raiar do sol, como o anúncio de novos tempos. Ao menos era exatamente como ele encarava o momento, praticamente como um escravo liberto livre de suas correntes ou como o homem que sai da caverna e vê o mundo e a luz pela primeira vez segundo o Mito da Caverna de Platão. Tudo era tão diferente que sabia que iria demorar a se acostumar, não que isso fosse um ponto negativo, muito pelo contrário, sair de sua terra natal, que atualmente passava por uma rígida crise econômica era quase como uma benção. É impossível alguém sobreviver com limites de saques e o dinheiro controlado com pulso de ferro, no entanto, novas esperanças rondavam a Hellas (forma como os gregos chamam a Grécia) da mesma forma que agora novas esperanças rondavam as suas expectativas particulares.

Não tardou à chegar na instituição contendo toda a animação. O arrepio na espinha não era melhor traduzido do que “animação”. O cabelo penteado para frente e a barba apesar de baixa já meio volumosa dava um traço diferente pelo lugar, afinal em meios assim não é tão comum ver homens barbudos de porte atlético e quando são identificados quase sempre são taxados de intelectuais ou simpatizantes de políticas esquerda, o que não era o caso de docente com nome de filósofo.

Chegara na sala antes do previsto, estava ansioso a ponto de olhar o relógio prata a cada 2 minutos. Ajeitou o paletó cinza sobre a camiseta branca de gola V, guardou as mãos nos bolsos do jeans. Revirou os olhos até finalmente o olhar atento acompanhar os primeiros a chegarem. Aguardou, ate por fim pigarrear chamando a atenção dos alunos. Apesar de toda essa bagunça por dentro, do lado de fora ele era uma pedra solene, olhar cerrado e até um semblante sério. – Bem vindos à todos, chamo-me Sokratis Papastadopoulos e serei o professor de vocês de teatro. – falou o sobrenome sem titubear, o que já era uma grande conquista, afinal só conseguiu falar tudo sem pausas ou erros quando estava nos dois últimos anos de escola. – Peço desculpas à vocês pelo atraso, a disciplina já deveria ter começado à algumas semanas, mas tive uma desinteligência com o setor aéreo. – desinteligência uma ova, ele tentou de todas as formas evitar aviões, o que acabou fazendo-o se atrasar para chegar ao país. Sem mais rodeios apenas atentou-se à minimizar o sotaque, mesmo fluente em inglês, a sonoridade do grego é diferente demais, o que poderia acabar fazendo com que desse entonação errada à algumas sílabas e pequenos deslizes do gênero.

Mas vamos falar de teatro agora. O teatro é mais que puro divertimento ou distração, é um mundo à parte. O ator é mais que um mero participante, ele é um ser flutuante, que transita entre esse mundo que instiga o imaginário e o real. Ele é alguém que deve saber se adaptar e re-adaptar dependendo de cada situação e do que é pedido, ele é um ser de múltiplas faces, que necessita dominar múltiplos recursos. – fez uma breve pausa, tomou uma postura mais relaxada e decidiu prosseguir. – Não é àtoa que desde os tempos helênicos os atores interpretavam múltiplos papéis numa única apresentação. – concluiu o pensamento, agora era a hora de uma atividade, mesmo com a introdução bem resumida que deu. Era bom ver o pensamento bruto dos alunos para depois pensar numa boa metodologia para trabalhar. Foi até o quadro e desenhou apressadamente máscaras, uma com expressão feliz e outra triste, as máscaras que simbolizam o teatro e a dramaturgia. – É simples, venham aqui na frente e transitem do feliz, cômico, irreverente, para o trágico, triste, melancólico. Cada um tem até 3 minutos, texto, cenário, personagens, todos vocês tem livre espaço para fazer como quiser se precisarem posso ajudar sendo algum outro personagem que quiserem. Mostrem porquê escolheram essa matéria.



Limite de Postagem da Aula: até dia 25/07/15

The Greek, The Teacher, The Dreamer



Última edição por Sokratis Papastadopoulos em Sab Jul 18, 2015 8:09 am, editado 1 vez(es)

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Mensagem por Pietro Bertolazzo em Qui Jul 16, 2015 10:29 pm

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Data de inscrição : 11/07/2015





Eu sei que foi você, Aaron Hubbard!

"Guarapari, Búzios é minha arte.
Romero Britto, Katrina?
Vai doer bagarai meu braço..."






Running off over next doors garden
Before the hour is done
It's more a question of feeling
Than it is a question of fun

Meu dia já começava animado com o costumeiro som de Arctic Monkeys me despertando. Eu havia dormido como um bebê: gemendo, com cólicas intestinais, vomitando e chorando. Desde a hora do jantar no dia anterior, eu me sentia mal. Alguém trouxe meus remédios da enfermaria pela noite, mas eles só tiveram efeito depois das três da manhã. Eu não sabia bem o que havia caído mal no meu estômago, mas o que importava era que eu já estava melhor quando acordei. Deixei o alarme tocando e abri a porta do guarda-roupa. Excepcionalmente, hoje eu não passei muito tempo escolhendo uma roupa. Depois de um longo banho, vesti uma camiseta azul de algodão puro e uma calça jeans negra da Calvin Klein. Passei um perfume qualquer e dei uma olhada na minha aparência. As maçãs de meu rosto estavam vermelhas, indicando que eu estive doente há pouco tempo, mas eu não podia fazer nada para evitar aquilo.

Pensei em não ir para a aula, com medo de passar mal novamente. Mas acabei saindo do meu quarto, rumando o auditório... e fui sem tomar meu café-da-manhã, afinal; eu estava um pouco enjoado e sem fome. Ainda era bem cedo e a maioria dos alunos ainda estava se preparando para ir. Fui o primeiro a chegar ao local, que estava deserto, com exceção de um rapaz barbudo e aparentemente forte, que estava em pé no palco, parado como se fosse uma estátua de algum militar. Pude ver que ele olhou pra mim, mas logo desviou a atenção. Sem me importar muito com o fato da minha presença ser ou não notada, sentei-me numa das primeiras cadeiras do local e fiquei encarando o homem, esperando alguma reação dele.

-Ei, Pie. - Ouvi alguém chamar atrás de mim, era um amigo meu. - Aceita ser canibal por um momento? - Ele me disse, me oferecendo um pedaço de torta de frango. Só sentir o cheiro daquilo fez com que meu estômago desse um mortal triplo carpado com meia-pirueta dentro do meu corpo.

-Tira isso daqui, cara! - Eu disse, com nojo, afastando a mão dele. - Eu tô me sentindo podre. Então se eu fosse você ia comer pra lá se não quisesse ser coberto de vômito.

-Vixe, já vi que madame está de TPM - Ele respondeu, enfiando o pedaço inteiro de torta na boca. - Bom dia pra você também.

Troquei algumas palavras com meu colega e aos poucos, os outros alunos foram entrando no auditório, prontos para a primeira aula do dia. O garoto com quem eu conversara logo se retirou, afirmando que havia passado ali só para vir me zoar mesmo. Alguns colegas da minha fraternidade se sentaram ao meu lado, mas eu não os conhecia muito bem. Quando praticamente todos estavam presentes, o professor desfez seu cosplay de estátua e começou a falar. Ele tinha um nome muito bom de ser falar, era algo como "Soksaits Paladapapalododopulus". Pude perceber que alguns garotos atrás de mim tentaram repetir aquele nome baixinho, mas pelo visto eles haviam entendido tão bem como eu. Logo ele se apresentou, como todos os outros professores.

Após algumas desculpas a respeito da demora para o início das aulas (a diretoria me enviou pelo menos uns três calendários diferentes, adiando as aulas de teatro e as substituindo por outras), ele nos falou um pouco sobre a importância e o verdadeiro significado do teatro. Como se ele realmente fosse um filósofo grego, ele definiu esta arte como ninguém poderia definir. Eu sempre fui um amante do teatro e tenho lá algum talento como ator. Foi difícil escolher entre a música e o teatro, mas acabei tomando a primeira opção como minha atividade principal dentro deste colégio. No entanto, eu não ficaria de fora destas aulas por nada neste mundo.

Havia uma lousa branca, daquelas que se escreve com um canetão, ao lado do professor. Ele rapidamente desenhou algumas máscaras (e pra um desenho rápido, ficaram geniais) e passou a primeira atividade. Como Ernest, ele provavelmente também gostaria de saber qual é o nosso nível de atuação. Não vi problema nenhum em mostrar para ele o que eu sabia fazer. Ninguém pareceu se voluntariar para ser o primeiro, então eu levantei a minha mão. Aquilo seria bom, pois eu não ficaria ansioso e correria menos risco de subir no palco passando mal, já que naquele momento, eu me sentia bem melhor.

-Posso ser o primeiro, professor? - Perguntei.

Ele levemente acenou com a cabeça de modo positivo, como se me convidasse para subir ao palco. Levantei-me da minha cadeira e subi ao palco. Olhei para os lados e vi um banco de madeira velho em uma das coxias. Corri até ela e peguei o assento, pensando no que eu poderia fazer com aquilo. Neste exato instante, meu estômago fez um barulho e eu senti uma pontada de náusea. Fechei os olhos e engoli em seco... por um segundo, pensei no que poderia ter me feito tanto mal e imediatamente tive uma ideia.

-Professor, vou fazer um monólogo. Creio que não será necessário nada além desse banco.

-Muito bem. - Ele concordou, deixando que eu trouxesse o móvel para mais perto.

Sentei-me nele e fiz um sinal para Sok... soka... bem, para o mestre. Ele olhou para os outros alunos e todos já me encaravam, atentos à primeira apresentação.

Respirei fundo, de olhos fechados e forcei um arroto bastante emético. Bati no meu peito como se estivesse engasgado e meus olhos lacrimejaram, ficando mais vermelhos do que já estavam. Uma das meninas que estava à frente soltou um gritinho, achando que eu fosse vomitar em cima dela. Chacoalhei a cabeça e me dirigi ao público.

-Desculpem este estado! - Gritei - Estou assim desde a noite passada, na hora do jantar. Passei a noite tentando desvendar o que me fez um mal tão terrível. Minha madrugada foi péssima. Ah, como eu gemi e chorei! Até agora há pouco, não havia conseguido me recuperar.

Levantei-me do banquinho e olhei para o professor por alguns segundos e para a plateia, que parecia estar em dúvida se aquilo já era uma atuação ou se eu estava tentando me desculpar por meus problemas estomacais. Minha expressão era de tristeza e dor, mas logo franzi minhas sobrancelhas e torci o maxilar. Encarei um dos garotos que me assistia como se ele fosse meu maior inimigo.

-Mas é claro, só agora eu vejo quem foi o responsável pela minha enfermidade. - Eu disse, passando meu olhar por todos. - Com certeza foi o imbecil do Aaron que envenenou meu jantar! Aquele filho de uma mãe faz de tudo para que eu não consiga me dar bem em nada. Ele não queria que eu viesse para esta aula. Você deve estar decepcionado agora, não é mesmo, Hubbard?

Naquele momento, pude ver que todos ficaram esclarecidos. Visto que ninguém tinha conhecimento de um aluno da Academia que se chamasse Aaron Hubbard. Aliás, eu nem sei de onde eu tirei aquele nome, mas me pareceu convincente. De minha expressão de raiva, tomei um sorriso malicioso, até mesmo doentio. Senti como se a personagem inventada por mim realmente estivesse viva e me assistindo no meio daquela plateia.

-Você não me detêm, seu grande idiota! - Gritei, rindo sadicamente - Desista de tentar me impedir de prosseguir com meus sonhos, com meus estudos e com minhas amizades. Se você não é capaz de avançar na vida, não tente atrapalhar a minha. Lembre-se que eu nunca perco!

Provavelmente, os três minutos estipulados pelo professor já estavam se esgotando. Por isso, apressei-me em repetir a última frase: "Eu nunca perco", dessa vez com uma ênfase ainda maior no "nunca". Soltei uma risada que poderia tanto ser alegre quando maquiavélica e dei as costas para a plateia.

-Tempo esgotado, senhor... - O mestre disse, sem saber meu nome.

-Pietro. Pietro Bertolazzo.

-Muito bem. - O professor se limitou a responder. - O próximo!

Desci do palco e voltei para minha cadeira. Eu não sabia se eu havia atendido com precisão o que o professor esperava de mim, mas sei que eu provavelmente devo ter feito uma transição do "derrotado" para o "vitorioso". Nunca pensei que eu diria isso, mas... obrigado, estômago fraco. Ah, e por fim das contas, meu "Aaron Hubbard" eram as hifas de um pedaço de pão velho que eu comi no café de ontem.
 

valeu @ cács!




Última edição por Pietro Bertolazzo em Sab Jul 18, 2015 9:41 am, editado 1 vez(es)

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Nordic



Os apitos e tremeliques do meu celular acima da cama me fazia desejar arremessa-lo contra a parede mais próxima, ou simplesmente joga-lo no chão e pisar com bastante força; mas eu sabia que jamais faria uma coisas daquele tipo com meu quase sempre adorado aparelho celular – desfazer-me de tal aparelho seria como passar a viver sem o cérebro ou ... sapatos, ambos totalmente essenciais, pelo menos para mim. Enquanto dava pulinhos com um único pé como sustento, tentava calçar a sandália preta em detalhe trançado, desabei sobre a cama, tomando o aparelho que convulsava ali. Dedilhei a tela, observando a notificação de uma mensagem instantânea recebida. Timothy Keynes.

"Está perto do fim do intervalo, Hanna!
Logo o sinal bate e a aula de teatro começa. Apresse-se, Campbell.
Estarei lhe esperando na entrada do auditório.
Você tem cinco minutos, ma chanel.

— Tintim."

Se eu tivesse tempo para sorrir e responde-lo eu o teria feito, da melhor forma possível. Mas pra que eu iria gastar segundos para digitar se eu estaria na companhia do fabuloso Keynes em alguns instantes? Era até mais relaxante saber que ele dividia aquela aula comigo, era bom ter alguém como ele em um lugar como Vanity Valley, onde a coisa mais fabulosa que você pode encontrar é uma lojinha das Victoria Secrets que costumam ter em qualquer canto. Ok, eu não adorava o fato de Timothy ser de uma ordem adversária a minha. E ok, em algum momento a competitividade falaria mais alto que nossos sentimentos, mas eu não deixaria de tê-lo como um amigo por causa de uma sistema estudantil. Desde que eu havia posto os olhos naquele menino de blazer Dolce & Gabanna na festa de início do ano letivo eu sabia que ele seria meu parceiro, seja para bons ou maus momentos. E eu adorava o fato de não ter apenas minha irmã e um garoto com tendências a transtorno de déficit de atenção com hiperatividade como únicos conhecidos no instituto. Malditos primeiros dias em que tudo é novidade e ninguém é tão familiar, resmunguei mentalmente antes de saltar do colchão e correr pela última vez para o pequeno lavado do cômodo. Encarei-me no espelho para certificar que tudo estava em seu perfeito lugar; a saia preta de cintura elástica, com um bordado em malha numa camada superior a outra - que era mais curta - acentuava bem em meu quadril. Assim como a cropped preta de rendas que apertava meu torso mas entrava em uma perfeita simetria a saia. — Você está pronta para atuar, querida Hanna. — Minhas palavras saltaram para a eu do espelho e por breves segundos assumi uma feição de completa felicidade, com um sorriso tão largo e brilhante que poderia curar a tristeza e miséria de todo o mundo, mas logo em seguida diminui o sorriso de modo declinante, exibindo um olhar vago e perdido, os lábios arqueados em um semblante quase depressivo. "Sim, eu estou pronta!" Declarei mentalmente, lançando um beijo para meu reflexo antecedendo os minutos que eu estaria correndo para fora dali.


***

Eu não conseguia definir o que era mais instigante naqueles instantes pós-início da aula; se era o fato do professor ser um exemplo quase exato de um modelo fitness, a provável dificuldade que seria para todos ali pronunciar o nome do homem ou o fato de aquela classe ser beneficiada com alunos tão bem-afeiçoado. Em qualquer canto que você olhasse naquele auditório você veria um belo sorriso ou um olhar penetrante e excitado com a aula que viria. "Quem dera fossem nórdicos" pensei, observando um exemplo do que seria um ótimo nórdico ali, findando sua atuação em palco; Pietro Bertolazzo. Aplaudi assim como os demais ali, mas diferente dele, ninguém pareceu se disponibilizar a ir em seguida. — Minha vez. — Sussurrei para Timothy antes de me erguer e trocar de posição com Pietro, agora ele estava na plateia e eu havia assumido o palco, tendo todos aqueles olhares em mim. Engoli em seco, mordendo o lábio forte o bastante para espantar qualquer vestígio de insegurança e desatento. "Auto-Controle!" Ordenei. — Sou Hanna Campbell. Representarei Julieta no monólogo Shall I speak ill of him, da obra Romeu e Julieta, de William Shakespeare. — O sorriso  que desenhava meus lábios diminuiu e meus olhos se fecharam. Estava trêmula, meu estômago revirava e tudo que ouvia era as batidas do meu coração. "Faça. Você consegue. Você conhece o monólogo. Você pode ser Julieta." Encorajei.

A imensidão do auditório decaiu na escuridão e eu recuei alguns passos, indo mais ao fundo do palco. Uma ária lenta e melódica soava dos auto-falantes e novamente o holofote se acedeu, iluminando-me por completo. Não pude conter um curto sorriso secreto de agradecimento com o auxílio de alguns membros dos bastidores nos efeitos que aconteceram. Respirei fundo e me vi como Julieta no jardim de Capuleto. Eu tinha que acreditar que era ela, que podia ser ela naquele momento. Sem mais hesitar caminhei para mais a frente do palco com uma expressão de total desespero – os olhos arregalados e sem foco, a respiração forte, como se o ar estivesse prestes a faltar. Naquele instante acreditei que era Julieta e que em algum canto afastado de mim estava Romeu. Meu Romeu.

— Poderei falar mal de meu marido? Ah! meu pobre senhor, que língua pode teu nome acariciar, se eu, há três horas apenas, tua esposa, o mutilei? — Meus olhos vagavam na extremidade esquerda do palco, estava posicionada de modo lateral para os alunos sentados nas poltronas e de costas para o professor que pairava do outro lado do palco – quis imagina-lo como a enfermeira que continha na cena original, seria bem melhor assim. Minhas mãos unidas pairava abaixo de meu busto, era como se eu sentisse dor, uma agonizante dor no peito. Minha voz mostrava-se trêmula, meus olhos já enchiam-se de lágrimas verdadeiras – por consequência as lembranças que permiti invadir minha mente, drenando aqueles sentimentos para algum canto em meu interior me despertasse a vulnerabilidade de meus sentimentos –, minha respiração pesava. Me virei, caminhando atordoada para a outra extremidade do palco, na mesma direção da "enfermeira" que mantinha-se imóvel a alguns metros de mim. Um suspiro soltou de meus lábios quando findei minhas palavras, meus punhos cerrados, pressionei-o contra o peito, caindo lentamente até que me pusesse de joelhos escondendo a face com uma mão.

— Mas por que deste a morte, miserável, a meu primo? É que o primo miserável teria dado a morte a meu marido. — Meus olhos mantiveram-se fechados e meu ombros curvados, como se carregasse um enorme fardo. Minhas mãos unidas em meu peito desfaleceram pelo fino tecido da saia emaranhando alguns dedos sobre o traje.  Estava em um misto de sentimentos naquele momento, a confusão tomava-me a cada instante. Suspirei lentamente e abri os olhos, voltando-me a frente, encarando ao horizonte, o pesar era visível em meu tom vocal ao relatar sobre Tebaldo, meu primo, e seu desejo na morte de Romeu. Segundos se passaram quando eu decidi deslizar os dedos pelos olhos limpando as lágrimas que molhavam meu rosto. — Voltai, lágrimas tolas, para vossa fonte de origem. À tristeza são devidas as gotas tributárias que por engano ofereceis ao riso. — Pus-me a citar as palavras em um tom mais baixo, diferente do tom de desespero que eu ditava antes daquilo; era como se eu citasse aquilo para mim mesma, numa conversa paralela, tentando me convencer. — Vivo está meu esposo, que Tebaldo desejava matar; morto, Tebaldo, que teria matado meu marido. Isso consola-me. — Um suspiro de alivio substitui ao do desespero que outrora assolava em mim; Tebaldo desejava a morte de Romeu, meu Romeu. Agora estaria ele falecido pelas mãos de quem tanto desejou ceifar. Romeu estava vivo, afinal. Deixei aquela certeza me dominar, espelhando-me em Julieta e deixando o sorriso típico de uma menina apaixonada tomar meus lábios, a pureza de uma felicidade pela vida do amado era expressado no meu olhar, que mirava a figura de cabelos escuros e curtos, minha irmã, Mary. — Então, por que chorar? — O sorriso vacilou, quando girei para encarar o professor-enfermeira, como se precisasse que ele/ela desse-me a resposta. Mas o silêncio permaneceu ali, e meu olhar que até então brilhava pelo refrigério da vida de Romeu caiu, mudando para algo mais sério.

— Mas há uma palavra pior ainda que a morte de Tebaldo e que me mata. Desejara esquecê-la; mas, oh dor! pesa-me na memória: Assassinado foi Tebaldo e Romeu se acha banido! Essa palavra só, esse "banido", matou dez mil Tebaldos. — Minha cabeça se ergueu lentamente e nos meus olhos já se formavam novas lágrimas, lágrimas daquela nova dor. Minhas mãos pressionaram meu peito e meu olhar desolado corriam por cada canto do palco a procura de um algo que certamente não estaria ali, não mais. Amargura e pesar tomou minha voz ao falar do assassinato de Tebaldo, e de Romeu, meu Romeu agora banido, demorei-me em falar banido, e ao falar meu tom tomou-se de uma súbita incredulidade. Mirei os alunos bem a frente, dirigindo pouco da minhas palavras a eles; Banido, a repulsa e o sofrimento tomaram minha voz ao pronunciar pela segunda vez tal palavra, e mais lagrimas se puseram a cair de meus olhos, lágrimas estas silenciosas e vagarosas. — Essa morte de Tebaldo já fora dor bastante, se terminasse aí. — Cerrei os punhos novamente e soquei o ar num movimento baixo, iniciando  uma caminhada de um lado ao outro; meus passos eram ligeiros e meu olhar atordoado. — Ou, ainda mesmo que a dor amarga amasse a companhia, e acompanhada se fizesse sempre de outras desgraças, por que causa, quando ela disse: "Tebaldo está sem vida", não se seguiu, também: "teu pai foi morto", ou "tua mãe", ou ambos, sim, que fora razão de sobra para as ordinárias lamentações. — Minhas unhas cravaram-se no tecido da saia enquanto eu cessava meu caminhar após muito resmungar perdida; segui até poder me apoiar a uma coluna na extremidade direita do palco. Meu olhar caiu aos meus pés e novamente tornei a chorar em dor a toda a desgraça que ocorria; em mente tornei reunia a todos os momentos de fragilidade que tive o desprazer de viver, aquilo ajudaria a deixar o choro mais real, nada forçado a ponto de transparecer falsidade.

Um soluço breve rompeu meus lábios antes que eu seguisse tentando falar. Forcei os dedos contra as lágrimas, secado-as com certa brutalidade antes de prosseguir brandando com um tom de revolta. — Mas vindo a retaguarda da morte de Tebaldo com este título: "Romeu banido foi", não há limite, medida, fim, nem termo para a morte dessa palavra. — Disparei as palavras de maneira apressada contra Sokratis, encarando-o com um olhar vidrado, um timbre revestido de um dolorosa fúria enquanto eu tropeçava nos meus passos lentos para o centro do palco, imaginando-me sem forças sequer para andar e espelhando aquilo. Minhas mãos se elevaram pelos meus cabelos soltos, prendendo-os ao alto da cabeça enquanto eu arfava, olhando o chão com horror das palavras que pairavam minha mente, das palavras que eu ditaria a seguir. — Tudo está sem norte. — Sussurrei alto o suficiente para que fosse ouvido; minha  face parecia petrificada, meus olhar morto e eu permaneci estagnada até que a música parasse, as luzes se apagassem e eu me obrigasse a caminhar para a coxia.

"Próximo!" Ouvi a voz masculina brandar no auditório enquanto eu me dirigia ao espelho dali, desejando retomar a postura neutra e retornar para assistir o resto da aula.





i'll be your juliet
ACTING

### FIRST THEATER CLASS // Hanna está no Auditório com Professor Sokratis e a classe, suas vestes foram postas no post, e ela está atuando seu monólogo.


____________

❝ baby be the class clown. i'll be the beauty queen in tears.

H BY H.

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Mensagem por Henry Daniel Grey em Dom Jul 19, 2015 12:22 am

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Greeks

Teatro
why so serious?

Joguei as cobertas para longe e logo depois as roupas que estavam amontoadas ao lado do que era para ser minha minha cama começaram a voar também. Onde estava o maldito celular no meio daquela montanha de bagunça? Já estava quase desistindo quando ouvi um meow e ao olhar para meu gato, e vê-lo deitado sobre ele. -Então estava aí! Valeu Puss in Boots! - comentei coçando atrás de sua orelha antes de pegar meu celular embaixo dele.

Caminhei direto para o auditório, controlando para não rir alto ao passar pela enfermaria já que a ultima coisa que eu queria era ter uma conversa nem tão agradável com minha mãe. Entrei no grande auditório que já começava a se encher com novos alunos e esperei pelo começo da aula.
...


Então tínhamos um novo professor de Teatro, ele parecia ser do tipo que fica metade do dia na academia só para ver sua massa muscular ficar maior. Ou para ficar mais magro, ou mais metrossexual, whatever.

Assisti com pouca atenção a primeira apresentação, notando apenas que era um garoto da minha ordem e que ele tinha inventado algo na hora. Mas na segunda eu mantive meu olhar preso a garota que encarnava Julieta tão bem no palco, naquele momento sabia que não poderia apresentar Shakespeare sem passar vergonha, mesmo sendo minha vontade interpretar Otelo. Minha respiração parecia estar presa na garganta quando ela acabou e eu me vi a bater palmas de maneira calorosa quando ela saiu do palco, mesmo que ela fosse uma nórdica.

Me levantei e fui em direção ao palco para me apresentar. Subi a escadinha e parei no meio do palco, cerrei um pouco os olhos quando senti os holofotes pararem sobre mim. -Sou Henry Grey. - falei meu nome mas fiquei por alguns segundos parado, sem saber o que fazer já que o autor inglês estava fora de cogitação e eu estava sem saco para interpretar Brontë ou Austen. Fechei os olhos e respirei fundo, fechei minhas mãos em punho com força. Se eu quisesse interpretar bem um personagem eu deveria me tornar ele.

Quando abri os olhos, eles exibiam um brilho diferente, vidrado e ao invés de usar o palco eu pulei dele e caminhei direto para o professor, pegando um lápis de um aluno pelo meio do caminho e quebrando-o ao meio. Dei um sorriso que junto ao olhar me fazia parecer instável, louco...

Cheguei no professor e agarrei sua cabeça colocando a parte quebrada do lápis contra sua bochecha e a outra mão foi para seu pescoço, onde apertei com certa forçaa. -Quer saber como consegui essa cicatriz? Meu pai era bêbado e drogado. Ele batia em mamãe na minha frente... - comecei falando como se tivesse contando um segredo e gradativamente aumentei o tom de minha voz, minha mão que segurava o lápis tremia propositalmente para dar um efeito melhor ao personagem. Quando falei sobre mamãe assenti com a cabeça e me aproximei mais. -Uma noite ele ficou mais louco que o normal e mamãe pega a faca da cozinha pra se defender... Ele não gosta disso. Nem. Um. Pouco. - falei com um pouco mais de raiva exposta na voz.

Com a mão que estava segurando seu pescoço eu fui ate seu cabelo e puxei para trás, aproveitando para colocar parte do lápis na boca do professor, eu só esperava que no final disso não acabasse com zero, ou expulso. -Então, olhando para mim ele vai até ela com a faca, rindo enquanto faz. Então ele vira para mim e diz 'porque tão sério?' e depois vem até mim, 'porque tão serio?'... - digo forçando a voz um pouco para soar levemente rouca e aperto a parte quebrada do lápis contra a parte interna da boca do professor e puxo mais seu cabelo. -E colocou a faca na minha boca, 'vamos colocar um sorriso nesse seu rosto' e... - interrompi soltando uma risada alta que me fez tremer, olhei para um dos alunos que estava ao lado do professor e inclinei o rosto dando um sorriso sádico. -Porque tão sério? - perguntei em tom curioso para o rosto amedrontado do adolescente.

Soltei o lápis no chão e fechei os olhos, respirando fundo antes de olhar para o professor de nome difícil. -Desculpe se fui um pouco drástico professor. - falei com um sorriso antes de voltar para o meu lugar. Mas o que diabos tinha dado em mim para sair de Shakespeare para o Coringa?


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Mensagem por Andrew H. Sibley em Qua Jul 22, 2015 10:44 pm

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We all need a little of art
the class!
As roupas eram casuais, nada chamativo ou exibido para a minha primeira no auditório com o professor de teatro. Eu me sentia nervoso, deveria admitir, e eu apenas queria que sob qualquer hipótese o professor fosse ao menos tão agradável quanto o professor de música, para que eu pudesse me desenvolver sem empecilhos, afinal ninguém merece um professor de olhar penetrante e ranzinza, sempre com uma expressão carrancuda nos olhos. Caminhei quase como se desfilasse, eu precisava estar bem no meu primeiro dia de aula, e eu não poderia sob nenhuma hipótese me atrasar ou chegar mal-arrumado parecendo um dos mendigos drogados que haviam aos montes pela escola, como sempre fumando maconha e com olheiras profundas. Levava uma mochila negra com um caderno e uma caneta para anotações e observações, afinal minha memória é simplesmente horrível. O local era espaçoso, escuro e mais gelado que lá fora, pude perceber, não haviam janelas - óbvio, né - e haviam fileiras e mais fileiras de cadeiras, provavelmente umas trezentas pessoas poderiam caber ali sem problemas, com direito a um enorme palco. Ergui as sobrancelhas impressionado, varrendo o local com os olhos podendo encontrar um jovem que eu tinha certeza ser do grupo dos Gregos, bastante intrometido e que havia me trucidado com o olhar na aula de música. Passei direto por ele, sentando-me ao lado de uma estonteante loira.

O professor parecia um daqueles adeptos a ser bombado e ter músculos maiores que uma cabeça humana, mas ainda sim tinha sua certa beleza. Cruzei a perna direita sob a esquerda de forma lenta, recostando-me na cadeira negra de frente para ele, que iniciava seu monólogo e pude notar que havia sido ensaiado cada mínima palavra. Sorri de canto de rosto com tal observação; era um impulso impossível de se evitar, então eu sempre analisava automaticamente todas as pessoas, sem exceções. Apresentações feitas, monólogo introduzido à aula, ele passa o que iríamos fazer; teríamos três minutos para nos produzirmos como bem quiséssemos, e deveríamos transitar entre as diversas emoções humanas que um ator pode expressar. Enquanto ele falava isso, eu cantarolava baixinho a canção "Homerecker" da Marina and the Diamonds, e uma ideia se passou por minha cabeça de uma boa interpretação, então ergui a sobrancelha direita, tamborilando de repente os dedos nos braços das cadeiras em ansiedade.

Eu não gostava de ser o primeiro a me apresentar, vai que eu fizesse algo de errado? Preferi deixar o moreno de rosto irritante apresentar-se. Sua apresentação foi interessante, apesar de eu na maioria do tempo pender a cabeça para o lado direito fazendo uma expressão de "O que droga é isso?" no intuito de que ele visse, e ao findar bati as mãos aplaudindo-o sem o mínimo de vontade, erguendo a sobrancelha direita sarcasticamente e por fim revirando os olhos, já a apresentação seguinte foi bem melhor, o moreno de aparência divertida fez uma incrível atuação que fez-me lembrar do Coringa, ao findar de sua apresentação aplaudi-o fervorosamente.Voltei às expressões normais e menos provocativas ao ver a loira nórdica ir ao palco, o que fez-me sorrir agradavelmente. Sua atuação fora esplêndida, digna de aplausos fervorosos, seu talento nato para a atuação era refletido em cada expressão, em cada palavra e seus timbres, era como se eu realmente estivesse vivenciando a cena. Apesar de eu odiar romances e nunca ter visto Romeu e Julieta por achar meloso e clichê, a loira realmente havia despertado um grande interesse meu em ver algum filme sobre a história ou até mesmo ler o livro.

Depois de sua descida do palco, me pus de pé, esticando as mãos de forma a entrelaçar meus dedos e fazê-los estalarem, me alongando. Subi ao palco, poupando-me da futura indecisão de roupas a se usar para apenas ficar com minhas roupas, tirando apenas a jaqueta jeans e pondo-a em cima de um banco próximo, sentando-me em um banco de madeira no meio do palco, arrastado por mim.

- Me chamo Andrew Sibley, e irei apresentar algo inspirado em um antigo filme que fala sobre uma mulher que matou o marido como forma de conseguir sua própria liberdade, e não, não sei o nome do filme, só sei que eu o vi ainda pequeno e ele foi para mim emocionante, mostrando um lado das mulheres que eu nunca havia visto antes - dei de ombros, fitando o professor para em seguida fitar os alunos sentados em suas poltronas. - Espero que gostem. - Abri um leve sorriso.

Após sentar-me, assenti para o professor para que ele iniciasse o cronômetro que ele provavelmente usava. "Três minutos, Andrew, não se esqueça que não deve prolongar, e lembre-se de improvisar e pensar corretamente as próximas palavras!" repeti para mim mesmo, assumindo uma pose ereta pus minhas mãos unidas uma sob a outra com as pernas unidas. Meu olhar fitava a luz intensa que focava-se em mim, e imaginei naquele exato momento no lugar de uma mulher que havia sofrido, sido humilhada e que havia por fim conseguido sua liberdade, mas que agora se via num tribunal; presa novamente, julgada e apontada por homens. Após um longo suspiro, iniciei:

- Eu não me considero culpada de nada! - estreitei os olhos, como que confuso com uma interrogação sobre culpa e inocência. - Há apenas o sentimento de finalização no âmago de meu ser, juiz e corte. Eu não sinto que devo nada para ninguém; estou plena e profundamente satisfeita com tudo. - Uma menção de sorriso se formou em meus lábios, meu polegar apertou fortemente minha mão, um gesto de leve nervosismo, porém não meu e sim da personagem, que encontrava-se perante a corte e um juiz, julgada, tendo de defender-se de acusações. - Eu sempre fui uma boa garota, sabiam? Os valores cristãos me foram impostos, e no dia que eu conheci ele, ah, ele era belo! - a mão direita pousou em meu peitoral, a palma aberta, um sorriso se fez enquanto eu desviava o olhar do alto para fitar a plateia. - Costura, cozinha, limpeza; eu era uma esposa perfeita, eu sempre fiz tudo o que ele queria, sempre agradando-lhe, afinal essa é a obrigação de todas nós, não é? - meu olhar fixou-se na loira nórdica, como se ela fosse uma das testemunhas da corte. - Você precisa sempre olhar para seu homem, seu dono e saber o que ele pensa, o que ele quer, fazer sua comida preferida, porém não exagerar para ele não engordar, pois a culpa será sua. - Meus lábios crisparam-se, como se eu cuspisse as palavras de forma magoada, a mão em meu peitoral desceu e meus dedos crispados pousaram em minhas coxas, como se as pudesse perfurar.

- Ele enchia a cara todas as noites, eu sabia quando ele me traía, até mesmo com quem, e se eu reclamasse? Tapas me eram resposta de todas as minhas perguntas, e eu sempre ia, calmamente, me erguendo do chão com o rosto vermelho e com lágrimas quentes escorrendo por minha face amargurada, e ia direto para a cozinha, lavar os pratos, vendo minhas lágrimas doloridas caírem nos pratos enquanto eu tinha de limpá-los rapidamente para ainda ter tempo de massagear seus pés. - O meu rosto se tornou uma careta de dor e mágoa, respirei profundamente para dar um ar de expressionismo, de dor na face, como se cada tapa fosse repetido a cada fala minha, e senti meus olhos encherem-se de lágrimas. - Droga, eu era uma escrava... - baixei a cabeça, a mão direita crispada relaxou, deixei-a pousar na minha outra mão, agora trêmula, como se eu estivesse contendo um pânico de dentro para fora. - Como poder não se magoar quando você faz uma torta para o seu marido e ele não a elogia? O pouco dinheiro que era realmente meu eu o gastava com produtos de beleza; meu cabelo loiro ondulado era sempre bem arrumado, eu sempre tinha uma cintura fina e ostentava meu corpo em vestidos de cores agradáveis para ele, que chegava bêbado, cansado e que ignorava-me, apenas dizendo um "Faça minha comida, mulher" ou "Você ousou sair de casa vestida assim?", e céus, eram tantos tapas... tantos... - inicialmente um olhar de felicidade ostentou em minha face ao descrever minha personagem e pude até mesma imaginá-la loira e bela em um vestido dos anos cinquenta ou sessenta, para em seguida lágrimas escorrerem lentamente, o rosto lenta e dolorosamente tornando-se uma expressão inquietante de pesar e sofrimento.

- Então sim, matei-o, a faca que cortou-lhe a garganta foi limpada impecavelmente e posta de volta com as outras, fui bem higiênica como toda boa esposa, não? - agora um sorriso amplo e até mesmo bizarro surgia em minha face, eu dei de ombros ligeiramente, pendendo a cabeça para o lado direito enquanto as lágrimas ainda escorriam, minha expressão era a de uma lunática, também havia sarcasmo em minha personagem, um pouco de fúria contida, a risada seguinte, baixa, era rouca e sufocada por uns poucos gemidos. - Sim, querido juiz, matei-o, passeei de carro com a cabeça dele em minha bela bolsa por semanas, e foi incrível... - sorri, levando o dedo do polegar até o lábio inferior, dando de ombros e sorrindo, metade sorriso, metade lágrimas, e me levantei, suspirando profundamente e assentindo para meu professor de nome exótico e voltando ao meu assento.



I'm with teacher and students, and i'm wearing this. I'm Andrew.



Última edição por Andrew H. Sibley em Sab Jul 25, 2015 12:45 am, editado 1 vez(es)

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Mensagem por Mia Waldorf em Qui Jul 23, 2015 6:12 pm

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A vida é bela!
#8 . cena original:aqui roupa: aqui
Confesso que quando saí da sede da ordem para a aula de teatro não imaginava que teria um professor body builder. Também não imaginava que ele teria um sotaque gracinha e um nome impossível de ser pronunciado. Até fiquei confusa quando escutei ele dizer o nome. Sokratis Papa-o-que? Papa-aluna, talvez? Mas não era para babar no professor que eu estava ali. Muito menos para indagar o porquê da vingança da mãe dele por o batizar assim. Há dias ansiava pela aula de teatro, sou uma amante dos filmes e das peças. Como não admirar a habilidade que os atores têm de te fazer sentir o que você não sentiu? Simplesmente incrível. Além disso, demonstrar emoções e ser expressiva eram pontos cruciais que eu precisava aperfeiçoar para me candidatar ao ballet de Bolshoi no futuro. Sok Papador seguiu sua aula, explicando como era o teatro na Grécia antiga, o que são os atores e o que deveríamos fazer naquela aula. Quase arrancei os cabelos com o tempo limitado de três minutos, mas conseguiria planejar algo que coubesse no ‘se vira nos três’.

Quando penso em felicidade, comicidade, irreverência, tragédia, tristeza e melancolia, todas presentes em uma mesma cena, penso no desfecho de “A vida é bela”. O filme “La vita e bella” se passa durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália. O judeu Guido, interpretado por Roberto Benigni, e seu filho Giosué são levados para um campo de concentração nazista. Afastado da mulher, ele tem que usar sua imaginação para fazer o menino acreditar que estão participando de uma grande brincadeira, com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que os cercam. É um clássico do cinema, bastante premiado, com certeza o professor estaria familiarizado. A obra é uma das minhas preferidas devido sua visão otimista apesar das desventuras. Transformar um campo de concentração em uma gincana para preservar a infância do filho representa tanta força de espírito que seria uma honra e um desafio representar Guido.

Na cena em questão, Guido é capturado pelos soldados nazistas durante a fuga de judeus com o apoio dos Estados Unidos. Seu filho Giosué, escondido, observa o ocorrido, e por isso ele faz de sua morte uma brincadeira. Eu precisaria adaptar um pouco a cena do filme com título inspirado em Trotsky para que coubesse na estrutura que tínhamos, afinal era um teatro e não uma tela de cinema. Também precisaria da ajuda de um colega para manusear um holofote do palco e do professor, para fazer meu carrasco nazista e apertar o “play” em uma reprodução do som de tiros quando meu tempo se esgotasse. Com tantas coisas para arrumar, não pude apreciar de perto a atuação dos meus colegas, mas só de escutar pude sentir a emoção na voz deles ao pronunciar suas falas.

Escrevi um rápido roteiro para orientar o professor no auxílio que prestaria a mim, assim como para o meu bom colega que se dispôs e manusear o holofote. Corri até a arara de figurinos que dispunha o teatro em busca de itens de vestimenta que pudessem dar verossimilhança a minha atuação. Como interpretações da Segunda Guerra são corriqueiras, não foi difícil encontrar a roupa de prisioneiro judeu listrada de azul e branco, assim como o chapéu que o acompanha. Também providenciei braçadeiras vermelhas com a suástica nazista e uma espingarda falsa para serem usadas por Sok. Ele não teria tempo para vestir todo o uniforme de soldado, apesar de eu imaginar que ele ficaria bem sexy de farda.

Troquei de roupa atrás da arara de fantasias, escondendo o cabelo no chapéu do uniforme de prisioneiro, e segui para a plateia, podendo assistir o final da interpretação do meu colega de teatro e da equipe de animadores e aplaudi-lo. – Posso ser a próxima, por favor? – Perguntei assim que tive a deixa. Entreguei para Sok o roteiro e os acessórios e sinalizei com os dedos para cima para meu colega que já estava posicionado com o holofote. Subi no palco meio desajeitada e me posicionei no centro. – Sou Mia Waldorf, vou interpretar Guido, de “A vida é bela”, na cena de sua execução enquanto seu filho o observa escondido. – anunciei para meus colegas na voz mais confiante que consegui ter naquele momento de tensão no Caldeirão.

Quando as luzes se apagaram por um segundo, dando início à cena, eu senti meu ar sumir. Einsten está certo, o tempo é relativo. Aquele segundo pareceu durar muito mais do que o normal. Meus músculos estavam tensionados, duros, de tanto nervosismo. Eu conseguiria transmitir toda a emoção daquela cena que me faz chorar sempre que a vejo como espectadora? Naquele interminável segundo de escuridão, juntei minhas energias para crer na minha capacidade, para crer na dor verdadeira que tantos passaram com o holocausto, para crer no poder da catarse que tem o teatro de passar para nós algo que não vivemos. Enchi meus pulmões de ar. Eu, Guido. Eu pai. Eu tão realista e ao mesmo tempo tão otimista. Eu que acredito na beleza onde só há feiura.

O holofote acendeu focando em mim. Nesse instante, arregalei meus olhos em desespero, flexionando os joelhos e curvando o corpo para frente, enquanto minhas mãos faziam sinal de “pare” e eu gritava a plenos pulmões olhando a plateia. – Dora! Dora! – meu tom de voz era desesperado, mas também esperançoso. – Sou eu! Sou eu: Guido! Dora! – disse apontando para meu peito, conseguindo até esboçar um fraco sorriso. Então corri até a beirada do palco, com uma expressão confusa, sem entender porque a carroça que estavam levando judeus para fora daquele inferno não esperava por mim e meu filho. Dora me conhecia, então por que não me ajudava? – Não nos deixe! – gritei desesperada, já sem nenhum traço de esperança no rosto, apenas angústia, e parei no limite do palco quase caindo. Meu corpo, então, demonstrou minha desistência. Braços caídos, sem vida, um pouco corcunda, e uma respiração ofegante e pesada que ecoava pelo auditório. Meus olhos, sentindo todo aquele cansaço, lacrimejaram, mas nenhuma lágrima caiu.

Foi então que a voz do professor ecoou cheia de ódio pelo auditório. – Um judeu! – gritou. Nesse momento, comecei a correr por todo o palco, fugindo do inimigo invisível. As paradas da minha corrida ocorriam muito breves, apenas para demonstrar uma expressão assustada, com os olhos bem abertos e os lábios entreabertos. O holofote me acompanhava em todas as direções. Então o holofote, propositalmente, me perdeu de vista, e ficou vagando no palco sem focar em ninguém. Nesse momento, me escondi atrás de uma das cortinas azuis, deixando só a cabeça e a mão expostos. Mas o holofote, como programado, me achou. O professor, usando as braçadeiras com a suástica e carregando a arma de mentira, apareceu no foco de luz. A arma estava apontada pra mim e ele estava com uma linguagem corporal severa e expressão raivosa. Saí de trás da cortina, com as mãos para o alto como quem se rende. Dei passos devagar para trás, com os olhos fixos no soldado. Eu estava ofegante, balançando a cabeça negativamente, implorando para que tivesse piedade e me deixasse viver. Então tropecei propositalmente e caí, pude ouvir algumas pessoas da plateia se assustarem. Coloquei os dois braços cruzados em um “x” escondendo minha cabeça, o corpo se encolhendo, como se esperasse ali a morte. – Levante-se! – gritou o soldado e eu prontamente obedeci.

O professor andou e ficou atrás de mim, colocando a arma nas minhas costas. – Vamos! – bradou. Caminhei como alguém que acaba de levantar, arrastando os pés no chão de madeira, a cabeça caída, os lábios trêmulos. Acelerei o passo tentando fugir, mas ele me alcançou e colocou a arma em mim novamente. Quando chegamos ao centro do palco, levantei a cabeça para olhar a plateia, como um movimento involuntário, para depois abaixar novamente. Mas parei de andar e olhei para a plateia novamente, com uma expressão surpresa. Ali eu via meu filho, Giosué, escondido. – Filho? – sussurrei alto para que as pessoas escutassem. Cerrei os olhos para enxergar melhor e movi o pescoço para frente. Então sorri sem mostrar os dentes, como o pai que acaba que pegar o filho fazendo alguma travessura, mas acha a situação engraçada. Em seguida pisquei de modo exagerado, levantando a sobrancelha do lado oposto ao que piscava.

Minha postura mudou da água para o vinho. Antes, exausto, agora, altivo. Fiquei com a coluna ereta, a cabeça erguida. Abri um sorriso calmo e feliz, meu filho estava ali, estava bem, estava vivo. Voltei a andar, entretanto, agora, marchava. Não como um soldado treinado, não! Como um palhaço. Uma marcha hiperbólica, levantando as pernas e os braços exageradamente. Ao chegar de um lado do palco, eu e o professor demos meia-volta e voltamos a andar. Passei a imitar Hitler, com uma mão usei dois dedos para fingir um bigode e levantei o braço oposto fazendo “heil!”. Escutei algumas risadas nesse momento, o que me deixou feliz. A luz, como em todos os momentos, nos seguia.

Quando chegamos ao centro do palco, acenei para a plateia me despedindo e o professor me deu um empurrão. Talvez ele estivesse atuando demais, porque eu quase fui jogada pra fora do palco. Ele saiu de cena, deixando o holofote só para mim. O sorriso acalentador que eu mantinha nos lábios, vagarosamente, foi se fechando. Meu olhar calmo, aos poucos, tornou-se preocupado, com minha testa enrugada e sobrancelhas se juntando. Dei um passo para trás, com meus braços abraçando meu próprio corpo, enquanto eu encarava a plateia como quem está prestes a chorar. Prendi minha respiração. Era o fim. Como combinado, Sok deu “play” no som de tiros que baixei minutos antes no meu celular para a ocasião. “Ta!Ta!Ta!Ta!Ta!” No primeiro tiro, joguei meu ombro esquerdo para trás. Abri a boca ao máximo, mas não gritei, puxei o ar. No segundo tiro, joguei meu ombro direito para trás. Meus olhos arregalados em desespero, pedindo clemência. No terceiro tiro, curvei-me para frente. No quarto, dei um passo cambaleante para trás. E no quinto e último tiro, com a expressão neutra, sem vida, joguei-me para trás, caindo de costas no palco. O holofote, assim que caí, se apagou.

Escutei palmas solidárias dos meus colegas e, quando a luz se acendeu novamente, levantei-me e fiz uma referência para eles, tirando meu chapéu e deixando os cabelos caírem soltos. – Muito obrigada pela ajuda, professor – agradeci ao deixar o palco, sem ousar pronunciar seu nome esdrúxulo ou chamá-lo pelo apelido que inventei. Também agradeci meu colega do holofote, que fez um trabalho incrível, e segui para guardar os figurinos de volta e recolocar minha roupa. Apesar de estar satisfeita com minha representação de um dos meus personagens preferidos, fiquei preocupada. Eu praticamente não tinha falas, como os meus talentosos colegas. Será que por estar atuando comigo o professor não conseguiu ver bem minha atuação? Eu esperava, do fundo do meu coração, que tivesse passado uma boa impressão. Como bailarina, eu represento personagens e emoções o tempo todo, essa aula significa muito para mim. Finalmente, com o trabalho concluído, pude assistir as atuações que restavam. E após o encerramento da aula, seguir para outra atividade.

GO EGYPTIANS! X

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Mensagem por Timothy G. Keynes em Sab Jul 25, 2015 10:28 pm

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Egyptians

PRECONCEITO

Olá, meu nome é Timothy e estou escrevendo alguma coisa aqui embaixo, provavelmente é um texto confuso que tenta ser claro, mas na ânsia por dar informação eu acabo me perdendo e deixo tudo confuso, enfim... Só queria mudar o que estava escrito aqui nas letrinhas pequenas, por isso estou escrevendo isso, bjks!
__________________________________________________________________________________
Já aconteceu de durante o banho ou enquanto você perdia o foco numa aula tediosa de geometria sua mente começar a reafirmar certezas antigas que você trouxe consigo durante anos e de repente, sem que você se dê conta, ao invés de ainda reafirmar você começa a questionar a verdade daquilo? Pois bem, isso acontece comigo o tempo todo, suponho que seja algo comum da mentalidade humana, por mais que eu não veja pessoas falando sobre isso na rua o tempo todo, acho que todos passam por essas transições de idéias, deve ser nos raros casos em que essas transições são registradas que surgem gênios como Platão, Descartes, Nietzsche ou Freud formulando teorias loucas sobre os sentimentos humanos. Não quero me comparar a eles, minha arrogância ainda não chegou a esse ponto, se bem que de acordo com Nietzsche, me comparar com ele e seus semelhantes seria algo saudável pro meu desenvolvimento intelectual.

Quanta ladainha inútil, né? Aposto que tem um professor de teatro lendo isso desesperado pra saber quando a coisa vai começar a fazer sentido, pra ser sincero, não sei se em algum momento vai fazer sentido, só sei que naquela manhã despertei mais cedo do que gostaria, eram umas cinco da manhã quando olhei a hora no visor do celular, talvez eu até tivesse conseguido voltar a dormir se não tivesse ido bisbilhotar o Instagram antes de tentar voltar pro mundo dos sonhos, quando tentei as portas já estavam bem trancadas e meus olhos bem abertos. Fiquei encarando o teto escuro do quarto, que na verdade é branco, mas no breu da madrugada tudo é escuro, foi nesse momento que aconteceu aquela coisa de questionar a verdade de suas afirmações e tal. Orgulho! É uma bela palavra que ao meu ver tem um único significado, significado este que tem duas faces uma espécie de Ing e Yang, pra exemplificar podemos fazer isso parecer uma aula de gramática e usar as frases "espero que Sókratis sinta orgulho de me ter como aluno" e "e espero que Sókratis não seja orgulhoso de mais pra me dar pontuação máxima" pra percebermos como em ambos os casos temos o sentimento, um sentimento que se confunde com arrogância se vc não gostar dos ideais de Nietzsche.

Mas o que orgulho tem a ver com o meu teto? Nada! Como eu disse, as coisas talvez não façam total sentido, mas olhando pro meu teto comecei a pensar em pessoas, mais pessoas, as mesmas pessoas de novo e lembrei que se elas não fossem tão orgulhosas teriam menos arrependimentos, por que muitas vezes as pessoas deixam de fazer coisas que querem apenas pra não dar o braço a torcer. Essa é a vertente dark do orgulho, a frase em que Sókratis cogita me dar pontuação máxima! A questão é que tocando nesse assunto em outros momentos da vida sempre me orgulhei de não ser orgulhoso, assumir meus erros e ainda pedir desculpas pelos erros alheios. E é claro que sempre me achei o máximo por isso. Mas de repente, olhando pro meu teto, percebi que sou a criatura meu orgulho vai além do orgulho da maioria é quando aceito os erros dos outros como se nada tivesse acontecido, não é um perdão sincero por ausência de orgulho, mas um excesso de orgulho que me impede de demonstrar que estou ferido com aquilo.

Vixe, como meus pensamentos estão melodramáticos! Eu deveria criar um tumblr ou ir escrever um diário, mas melhor me focar no momento em que meu celular começou a vibrar indicando que uma mensagem havia chegado, quem precisa de despertador com amigos como Hanna pra lhe manter atento a quando é hora de começar o dia? Sai da cama num pulo, literalmente, mas não é necessário refletir sobre minha rotina matinal aqui, indo direto pra parte em que eu estava lindo, de banho tomado, vestindo Ralph Lauren e Calvin Klein com uma daquelas bolsas masculinas hippies comprada de um cara com dreads no Central Park. A primeira aula do dia foi geometria, se você se lembra que citei algo sobre uma aula tediosa anteriormente, não preciso dizer o que meu teto estava lá, os minutos finais foram a maior tortura, principalmente por que eu tive a idéia genial de olhar meus horários mais uma vez pra então me tocar que a aula seguinte era teatro! Frio na barriga, borboletas no estômago, sinal soando, passos pelo corredor, passos pela escada, passos pelo corredor do segundo andar e eis que estou no auditório.

Uau! Por algum motivo eu achava que teríamos uma professora de teatro quando escolhi a matéria, mas aparentemente eu estava bem errado, o professor era um deus grego! E sou obrigado a dizer grego já que ele não escondia sua preferência por tal povo. A começar pelo nome: Sókratis! Claro que isso era culpa dos pais, não dele, mas as coisas que falava e ser professor de uma arte notoriamente grega acabavam por reafirmar tal realidade, talvez questionemos isso no futuro. O Narciso de Apolo foi bem direto com o que queria de nós, o que devo confessar, me deixou bem assustado. Tal diretriz era ao mesmo tempo muito vaga, eu esperava por algo mais mastigado, queria seguir um roteiro e nada mais. Mas agora eu tinha três minutos pra ser bipolar da forma que bem entendesse, o problema é que eu não tinha idéia nenhuma do que fazer e conforme meus colegas tomavam o palco com suas apresentações divertidas, dramáticas, emocionantes, contemporâneas, clássicas, mas sempre geniais! Eu me sentia mais burro e incapaz de produzir algo que se comparasse ao que via ali. Hanna esteve tão focada que mal conseguiu sair do personagem depois, voltou de sua apresentação shakespeariana impecável sentando do meu lado e sussurrei pra garota - Uau! Como eu vou ter coragem de subir no palco agora? ! Você arrasou! - Mas mesmo inseguro e tendo em mente que não ia fazer nada tão bom quanto meus colegas, subi lá em determinado momento em que parecia que ninguém mais ia subir

Uma expressão séria tomava meu rosto enquanto eu tentava parecer calmo, se tudo desse certo ninguém ia notar o quanto minha perna tremia, falar definitivamente não é meu forte. Aos poucos um sorriso ensaiado ganhou espaço conforme tinha certeza que toda a atenção da sala se voltava pra mim - Bom dia! - disse em alto e bom som enquanto começava a caminhar pelo palco, a cena em si não tinha começado ainda, mas aquilo já era teatro - Meu nome é Timothy e sou membro da ordem egípcia. - as palavras soavam de forma artificial, como as pessoas em grupos de auto ajuda, respirei fundo passando os olhos sobre os colegas de classe e pousando-os no professor como se aquele fosse um aviso de que ia começar pra valer - Tenho muito orgulho de estar aqui hoje - um sorriso bobo ganhava espaço enquanto meus braços se abriam e fechavam fazendo as mãos baterem contra meu corpo, eu tentava transformar toda aquela baboseira complexa de orgulho em algo palpável, que pudesse fazer sentido nas palavras - Tenho orgulho de ter escolhido estar aqui! Me orgulho de estar ao seu lado, sempre me orgulhareis de ter você pra mim! - não havia dúvidas que ali estava o momento feliz da história, o eu lírico estava postivamente orgulhoso, alguém lhe dava orgulho, talvez um filho com boas notas, um amigo que pede perdão, um pai que abraça, uma paixão que apaixona, eu fazia o possível pra emitir esses sentimentos em cada movimento, meus olhos encaravam o infinito como se a pessoa mais amada do mundo se encontrasse ali, minhas mãos iam se afastando do corpo como se tentassem tocar algo maravilhoso a minha frente, pode-se imaginar que eu estivesse diante de um deus - egípcio.

Me orgulho de não ter sido orgulhoso e perdoado - A treta começava a surgir, todo mar de rosas tem espinhos e um semblante mais firme ainda marcado por um sorriso sutil passavam a idéia de superioridade que o eu lírico acredita ter por perdoar - foi pela ausência de orgulho que hoje posso me orgulhar de ter você comigo - com uma postura impecável, mãos articulando em círculos frente ao corpo e um sorriso que beirava a zombaria aos poucos ganhando mais espaço em meu rosto minha mente explorava tudo aquilo que mais cedo havia sido desenvolvido, por um segundo o personagem se desfez e quem estivesse olhando veria um garoto assustado com os lábios entreabertos e olhar perdido dizer - tenho orgulho de dizer que te amo! - meus olhos se fecharam e um suspiro foi a porta de passagem pro clímax da coisa toda - mas por mais que eu te ame - disse dando uma pausa pra outro suspiro e voltei a abrir os olhos encarando meus colegas pelo tempo que pude, até perder o foco de tudo o que estava diante dos meus olhos - sou orgulhoso de mais pra te deixar partir. - Eu não queria dramatizar além da conta, mas cair de joelhos foi inevitável naquele momento! De cabeça baixa eu continuei num tom sussurrado, mas ainda audível - Me orgulho de ser orgulhoso se isso me faz te querer. - levantei a cabeça mais uma vez com uma expressão que beirava a dúvida, pois nem eu sabia o que estava tentando emitir nesse ponto - me orgulho de querer você - levando em conta que o coisa toda foi de improviso, quando cheguei nesse ponto comecei a ficar em dúvida se estava repetindo ou frases ou não. Me levantei devagar fazendo uma reverência e retornei pro meu lugar.



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Greeks
I used to rule the world...
Viva la Vida

Primeira aula e primeiro dia oficial na Weston Academy! Como eu me sinto? Animada, excepcionalmente feliz por ter trocado a agitação de Nova York para a vida pacata no interior da Pensilvânia, sem duvidas, isso é o paraíso. Para não dizer o contrario. O que me faz pensar seriamente se não seria mais fácil mandar eu e Hanna para um acampamento de verão, talvez fosse mais eficiente do que nos enfiar em um internato durante quatro longos anos. Poderíamos ser como Lindsay Lohan encontrando sua gêmea no acampamento e assim descobrindo que somos irmãs gemas. O que é uma competição idiota, pois eu e Hanna somos irmãs gêmeas bivitelina. Para os menos inteligentes, isso significa que fomos geradas ao mesmo tempo, mas em óvulos diferentes, o que nós faz ter características diferentes, como uma ser loira dos olhos azuis e a outra morena dos olhos negros.
Em suma, nada parecia certo em tudo isso, mas nem sempre o que parece certo pra nós é realmente o melhor. Isso me assustava. Adentro a famosa academia pedida com um papel na mão, tentando achar o auditório para a aula de teatro e xingo mentalmente a instituição por possuir labirintos no lugar de corredores. Eles poderiam ter um mapa para não nos perder, seria tão fácil e pratico, mas nos fazer atrasar para as aulas deveria ser mais divertido para a docência. Depois de um bom tempo perdida, consigo entrar na sala e entro por ela tentando não levantar atenção para minha chegada, o que funcionou perfeitamente e me surpreendeu com a habilidade que tenho de ser invisível. Então gentilmente me coloquei para prestar atenção a cada palavra do professor. Aliás, é um belo professor, seria um ótimo incentivo para assistir as aulas. Sorrio levemente ao ouvir proposta de tarefa do professor deus grego e obviamente meu sorriso era graças a ideia brilhante que tive. Imediatamente, assim que o professor os liberou para trabalhar em nossa apresentação vou direto para a sala com matérias do teatro e pego marionetes, um globo terrestre que era só uma bola de plástico com o mapa, uma tesoura, uma coroa e uma cadeira que lembrava o trono de um rei.
Assim que tenho oportunidade, arrasto a cadeira para o meio do auditório, amarro as marionetes ao teto em frente á cadeira, coloco a coroa que era nem um pouco discreta, ao contrario, era enorme, digna de uma rainha e não de uma princesa, escondo a tesoura ao lado do trono e suspiro fundo “Vamos Mary Elizabeth, você é melhor do que pode imaginar”.
Me sento na cadeira, com uma postura ereta e elegante, seguro o globo em minhas mãos, com uma embaixo e outra em cima. Imediatamente assumo uma expressão sonhadora, com brilho no olhar e um sorriso que beirava entre o de uma feliz lembrança com o de loucura. – Eu costumava dominar o mundo. Mares se agitavam ao meu comando. – Digo com um tom de voz encantado, psicótico, dava para ver a doçura de uma mente que vagava em um lugar por onde ninguém poderia sequer imaginar, e com as mãos balançam por um lado e para o outro o globo como se fizesse o mar sobre ele se balançar e em alguma parte da cabeça da minha personagem, elas balançavam loucamente. – Agora, pela manhã... Durmo sozinha... – Minha voz vai falhando e a minha feição sonhadora despenca junto com minha voz, que se passa triste, sem esperanças e o globo cai das minhas mãos, como se eu não tivesse mais forças para segurá-lo. – Varro as ruas que eu costumava comandar... – Olho para todos em volta com os olhos marejados, vendo tudo embaçado, como a realidade imposta a mim no momento. Ruína, solidão, perda, derrota... Sentimentos que acabam com o reinado de uma rainha, mas nunca com a memória do seu reinado. Então me levanto sorridente, andando em passos rápidos e apressados entre as marionetes, as balançando como se tivesse as controlando. Um sorriso maníaco se destaca em meu rosto sem nenhuma repreensão por minha parte, ao meu redor tento imaginar o lugar que minha personagem um dia poderia ter comandando mesmo que só em minha imaginação e meu tom de voz aumenta subitamente em alegria as memórias. – Eu costumava jogar os dados. Sentia o medo nos olhos dos meus inimigos. Ouvia como o povo cantava. – Grito em surpresa, animação, ódio, orgulho, todo o sentimento de uma rainha que pode ter perdido sua coroa mas nunca seu orgulho e isso se destacava em seu rosto facilmente. Orgulho... – "Agora o velho rei está morto! Vida longa ao rei!" – Pego a tesoura sobre o trono, desmanchando a minha postura de líder e passou pelas linhas que mantinham as marionetes em pé, como se eles caíssem junto ao meu reinado. – Um minuto eu detinha a chave. Depois as paredes se fechavam em mim. E percebi que meu castelo estava erguido. Sobre pilares de sal e pilares de areia – Deixo a tesoura cair sobre meus pés e falo perdida, sem sentimentos, sem nada, nem lembranças nem nada, só meu tom decepcionado com tudo e com todos, como se não entendessem o que eu estava passando e nem como poderiam me tirar do meu merecido lugar. Então olho para minhas mãos, sem rumo, sem expressão, com olhos sem focos, face gelada...  Então começo a contar como se fosse uma história, em ritmo pausado e calmo enquanto os sinos que eu havia combinado estavam badalando – Eu ouço os sinos de Jerusalém tocando. Os corais da cavalaria romana cantando. Seja meu espelho, minha espada e escudo. Meus missionários em uma terra estrangeira. Por um motivo que eu não sei explicar. Quando você se foi não havia. Nunca uma palavra honesta... – Lentamente meus joelhos vão perdendo a força e vou caindo sobre o chão como se estivesse derrotada, mas, olho para todos com orgulho e ar de vitória de uma louca sonhadora, ou só de uma louca e falo em uma voz de comando, poder e naturalidade, como se nada estivesse acontecendo. – Era assim, quando eu dominava o mundo... Então rio em desespero olhando para todos os bonecos em chão.

NOTES :Coldplay - Viva la Vida
Thank's Lyra' @CUPCAKEGRAPHICS




Última edição por Mary Lizzy O'Hal Campbell em Dom Jul 26, 2015 12:22 am, editado 3 vez(es)

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Mensagem por Noah Braückeroux em Sab Jul 25, 2015 11:58 pm

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Data de inscrição : 20/06/2015

Egyptians
                                 teatro
Noah permanecia parado, apenas olhando para o teto quando o despertador tocara. Não havia pregado o olho em nenhum momento da noite que se passara, apenas sentia-se agitado, rodando na cama, lendo seus livros e mexendo no celular. Mas agora, o trabalho o chamava.

Lentamente, o rapaz vai se levantando, coçando a cabeça, notando que, como sempre, seus cabelos escuros estavam muito bem embaraçados, não que cabelos curtos dessem trabalho, mas era realmente irritante ficar penteando por diversos minutos o cabelo. O egyptian dirige-se ao banho, então, depois de pronto, volta ao quarto, abrindo o guarda-roupa e fitando-se no espelho da porta, e simplesmente constatando: Cara, como eu sou gato. pensa Noah.

Quando se veste, com sua camisa cinza, de decote V e mangas que iam até os pulsos, sua calça jeans escura e tênis all-star de couro, branco e preto. O quarto em ordem, não seria necessário uma arrumação de última hora. Pegando seu celular e sua mochila, saiu do cubículo, trancando a porta.

Com passos rápidos, sai da sede dos Egyptians, olhando o horário no celular, e vendo que faltavam dois minutos para o começo da aula, se ele não corresse, se atrasaria. Logo Noah entra na grande instalação que muitos chamavam de “área interna”, subindo com certa pressa as grandes escadarias e entrando rapidamente no Auditório, que se situava no segundo andar, o que era um pouco estranho, por era um local bem grande, que até produzia certo eco. O professor havia acabado de começar a explicar a matéria, provavelmente já tinha se apresentado, mas como um “bom aluno”, Noah conseguira seu nome. Sokratis, de sobrenome impronunciável, provindo da Grécia. Logo que declinou seus olhos nele, descobriu o verdadeiro significado da expressão “deus grego”, ele era um deus, dava para ver como seus músculos se destacavam por baixo da roupa, e seus cabelos e barba, faziam-no parecer mais como um filósofo. O egyptian gostara, de verdade.

Professor Sokratis, então, passava a tarefa. Os alunos tinam que interpretar diversas expressões e sentimentos. Isso era simples. Noah ficara entre os últimos, então teve tempo de preparar algo original. Então chegava a sua vez, posicionando-se no palco, começara, com uma expressão cansada, quase como se estivesse triste:
— Por que meu amor me largou? Por que estou aqui sozinho, neste bar agourento, com bêbados felizes, com jovens cansados? Sinto-me um caco. – Seus ombros se inclinaram para frente, como se ele estivesse corcunda, mas fazia tudo parte da atuação. Chegava a hora da raiva. — Mas ela me traiu, não tem como negar – A expressão facial de Noah começava a ficar raivosa, e seu rosto quase ficava vermelho de ódio. — Mary Anne me traiu com o maus inescrupuloso homem desta cidadela, e isso é imperdoável. – Agora já não estava mais com a posição ruim, lhe doíam das costas, uma posição ereta era visível no rapaz, e ele começava a andar pelo palco. — Sinto que ela não me merece, eu sou um homem trabalhador, sabe, faço de tudo por quem amo, e percebo agora, que ela só estava comigo para me fazer de trouxa, ela nunca me amou. – Um sorriso agora começava a se formar no rosto do egyptian. — Sinto-me revigorado, – Então, jogou a mão esquerda para frente, como se estivesse jogando dinheiro em um balcão. Um largo sorriso estava impregnado no rosto do aluno. — Vou-me embora, amigo barman, sinto-me feliz, revigorado. Até mais ver. – Então Noah desce do palco, para ver as outras apresentações, e quando terminadas, sair, para as próximas aulas.
WE ARE AMAZING
robb stark



Última edição por Noah Braückeroux em Dom Jul 26, 2015 12:01 am, editado 1 vez(es)

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Mensagem por Sebastian Tucker em Dom Jul 26, 2015 12:00 am

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Data de inscrição : 06/07/2015

Greeks

Fire
.
Desolation comes upon the sky
                                                                     
“Coming out of my cage and I've been doing just fine. Gotta, gotta be down, because I want it all... It started out with a kiss, how did it end up like this?”

Mr.Brightside tocava alto nas caixinhas de som plugadas ao meu Ipod na noite anterior. Falem o que quiser, mas acordar ouvindo The Killers é pra deixar todo mundo de bom humor. Ainda mais com aquela música. Mas é claro que eu mudaria depois de dois ou três dias, porque pelo que me conhecia, acabaria enjoando da música por tanto ouvir de manha. Levantei já balançando a cabeça ao som da voz de Brandon. - But she's touching his chest now, he takes off her dress, now, let me go... And I just can't look, it's killing me and taking control. - Cantei ao abrir a porta do banheiro e me tacar no chuveiro. Afastei-me um pouco para não me molhar com as primeiras gotas que sempre, sempre eram mais geladas que o ártico. O meu tempo no banho não foi muito grande e assim que sai do box fiz minha higiene matinal e segui direto para o armário escolher que roupa usaria. Vasculhei na mente as matérias que teria no dia: Filosofia, História, Matemática e Teatro. Decidi então por uma blusa branca, uma calça jeans preta e um casaco da Calvin Klein também preto e aberto na frente. Ainda cantando alguma música do The Killers, desliguei o despertador e busquei meu celular no criado mundo. Coloquei minha tradicional bolsa Oxford nos ombros e sai dali em direção a primeira aula do dia.

Fui um dos primeiros a entrar no auditório. Eu estava bem e leve, como uma boa aula de teatro pedia. Por sorte eu não tive um daqueles sonhos que acabam com meu dia. Não tardou muito para o restante dos alunos chegarem e só me dei conta que o professor estava ali quando o vi chamando atenção. O cara era meio estranho, pra falar a verdade. E o mesmo poderia se dizer do seu nome. O primeiro era Sokratis e me perguntei se ele tinha alguma raiva de sua mãe por ter colocado aquele nome. Ok, tudo bem que Sokratis foi um filósofo da porra mas imagina uma criança na escola sendo chamada assim? E como se não bastasse, o segundo nome era ainda pior. Se ele fosse meu colega de turma já teria inventado alguma coisa com seu nome. Poderia ser: Filósofo Paspalho, Sokratis Papado, Sokra a Papa e etc. Porém, ele era meu professor e apesar de ser julgado como encrenqueiro, eu respeitava e muito os mais velhos. Apaguei tudo que ele disse sobre atrasos, aprendi que atrasos mostram incompetência e por isso eu NUNCA me atrasava. E se o fazia, tinha um motivo muito grande.

O papudo começ... Perdão. O PROFESSOR começou a aula explicando um pouco sobre teatro. Quero deixar claro que fiquei decepcionado com sua explicação rasa da matéria. Quero dizer, eu já tive aula de teatro antes e sei que é muito mais que isso. Esperava que na próxima aula ele aprofundasse um pouco mais sobre o assunto. O momento seguinte foi dado pela explicação da aula prática. Arqueei um pouco as sobrancelhas com seu pedido. Não era difícil, mas se tivesse alguém ali iniciante, teria MUITA dificuldade naquele exercício. Pensei em contestar, mas ele era o professor e se a Weston o contratou, tinha grande potencial.

O primeiro a subir no palco foi um garoto moreno com cabelo do Justin Bieber. Podia ver, claramente, ele jogando a franja pro lado e nesse momento fiz uma careta.  Sua apresentação foi legal, ele transitou bem por estados de emoções variadas. O projeto de Justin Biber tinha certo talento. O aluno, melhor dizer aluna, seguinte foi a mesma loirinha bonitinha da aula de música. Ela foi confiante ao apresentar sobre o que faria e logo cruzei os braços na altura do peito, observando seus próximos passos. Ok, tenho que admitir... Ela era boa. Ela era ótima, na verdade e o mais engraçado é que tanto na música tanto ali, era muito feito com muita verdade. Como se alguma parte dentro dela já tivesse vivido algo assim ou alguém muito próximo. Em todo caso, fora uma ótima apresentação. Me levantei com os demais para bater palmas e me atrevi em assobiar em incentivo. O terceiro garoto deu-se por ser o filho da diretora e eu não tive muito tempo de analisá-lo para alguma piadinha interna porque no momento seguinte ele já estava grudado no pescoço do professor fazendo uma apresentação foda. Definitivamente ali não tinha nenhum iniciante.

O quarto garoto foi um nórdico que, em minha opinião, foi melhor que a loirinha bonitinha. Além de ter interpretado uma mulher, interpretou muito bem. Consegui vê estados de emoções diferentes e a vontade com que ele fazia aquilo, tinha entrado na personagem sem se importar com o gênero. Admirável. Não pude deixar de torcer os lábios pelo fato dos melhores, até agora, terem sido os nórdicos. Cadê o talento do lado azul? Ia me levantando, mas uma garota, meio afobada, perguntou se poderia ser a próxima, e como um bom cavalheiro não me opus. Viu? Eu disse que era educado. Ela fez uma apresentação do caralho também, além de ter cara daquelas meninas que fazem series adolescentes, era bem bonita. E assim que ela se sentou eu levantei e sem dizer absolutamente nada fui até o palco. Fui até a coxia e peguei uma lápide de isopor, duas pedras e um pano marrom. Voltei para o palco colocando a lápide no procenio e uma pedra de cada lado para segurá-la e com o pano fiz uma espécie de retângulo onde simulava a terra do tumulo. Olhei para todos da platéia e fui andando para trás, saindo na ultima tapadeira. Respirei fundo, tirei meu casaco jogando em qualquer lugar e coloquei as duas mãos no bolso entrando no palco com a cabeça baixa. Eu não queria luz, nada. Queria apenas mostrar o que meu personagem sentia. O que eu faria? Um improviso inspirado em um dos muitos sonhos estranhos que eu tinha.

- Eu não aguento mais. - Coloquei a mão próxima ao peito enquanto caminha devagar até o procenio. - Eu não aguento mais essa dor dentro mim, não aguento mais ter que mentir pra mim mesmo e dizer que ta tudo bem. - Fechei os olhos, respirei fundo e olhei pra cima. As imagens do homem levando minha irmã no sonho veio a tona. - Ela era minha irmã mais nova. - Falei com pesar e voltei meu olhar na direção de um garoto sentado na primeira fileira. - MINHA ÚNICA IRMÃ! - Dessa vez gritei e deixei que meus joelhos tombassem no chão e mesmo que tenha doido, não fiz menção de nada. Respirei fundo novamente olhando pra baixo e quando levantei meu rosto, deixei que um pequeno sorriso brotasse ali. Agora veio a imagem de uma garota rindo pra mim, me empurrando e me chamando de chato - Me lembro como se fosse ontem dela me tacando um bolinho enquanto eu zoava que o cabelo dela parecia uma palha. - Ri, sentindo a alegria daquele momento, a alegria que seria ter aquela irmã por perto. - Ela disse que morreria por mim... - Falei entre um sorriso fechado e voltei a olhar pro garoto que estava na minha frente como se ele fosse meu melhor amigo e a unica pessoa ali disposta a me ouvir. - E eu não pude salvar a vida dela. Eu não pude me meter na frente da bala... - No meio da frase, minha respiração foi ficando cada vez mais pesada e eu apontava pro garoto a minha frente sentindo minhas mãos tremendo.

Deixei meu corpo pender para o lado e quando avistei a lápide neguei com a cabeça freneticamente. - Não. - Me levantei de uma vez indo ao centro médio e puxando os cabelos sem delicadeza. - Não... Isso é mentira. - Senti minha boca ficar seca e meus olhos marejarem. Eu não saberia o que fazer se eu realmente tivesse essa irmã tirada de mim. - Eu não sei o que fazer. Eu não...- Tudo que se instalava no meu peito agora era um sentimento real. Era como se eu tivesse realmente perdido essa irmã. - Ela não pode ter morrido. - A negação com a cabeça continuou e eu corri pro procenio puxando meu cabelo e olhando desesperado pra toda turma. - PAREM! PAREM DE MENTIR PRA MIM! MINHA IRMÃ TA VIVA! - A respiração foi ficando cada vez mais pesada, as ações eram intercaladas com puxadas do cabelo ou tapas no próprio peito. - Porque? – Perguntei, finalmente, chorando e caindo de joelhos mais uma vez. – O Senhor podia ter me levado, eu sou uma pessoa má, ela... Ela não. – Solucei, apertando meus olhos e abaixei a cabeça. Eu não conseguia ver nada, não conseguia ver absolutamente nada ali. A emoção tinha tomado conta de mim. Meu olhar se voltou pra lápide e fui até ela, deitando ali, com a orelha grudada no palco. Eu sentia meu coração batendo forte, sentia tudo que aquele personagem poderia estar sentindo naquele momento. Eu não aguentaria se aquilo fosse verdade. – Você não pode ir embora, Sara! Não pode! Eu te proíbo! – Gritei, já me levantando e fingindo jogar a possível terra - que era representada pelo pano -  pra cima. – Eu vou te tirar daí, irmã. Aguenta firme! – Falei em meio ao choro, continuando a jogar a "terra" pra cima e ergui um pouco meu corpo como se tivesse duas mãos me puxando – Me deixa salvar minha irmã! – Falei entre um soluço, me "soltando" de quem quer que fosse e voltei a fincar minhas mãos ali. Eu não me importava. Eu só queria tirar minha irmã dali. – Sara, aguenta firme eu vou te tirar dai, eu vou cuidar de você.
Ela não vai voltar, Sebastian! – Ouvi a voz de alguém falando e as mãos dele me puxando.Talvez tenha vindo alguém improvisar comigo, mas eu não pensei muito nisso. Eu estava muito dentro do personagem pra me importar com quem era ali.
- Me solta! – Me debati chorando mais que antes. – Eu preciso cuidar dela! – Falei olhando pra lápide. - Ela morreu Sebastian. – O menino falou e eu me soltei voltando a deitar sob o "túmulo" de Sara. - Volta pra mim irmãzinha... – Falei entre soluços. – Volta pra mim... – Apertei os olhos e imaginei sua imagem sorrindo. Apertei a "terra" embaixo de mim com toda força, sentindo o pouco de unha que eu tinha, fincar na minha pele. Eu precisava tirar ela ali. – ME DEIXA TIRAR ELA DAÍ! – Voltei a gritar e cavar a terra, sentindo as pontas dos meus dedos doerem por estarem se forçando no chão do palco, mas aquela dor não tinha importância nenhuma naquela hora. Me senti sendo  puxado pelo tronco com mais força, mas eu era mais forte. Eu era mais forte que qualquer um ali e ninguém ia me impedir de tirar minha irmã daquele lugar horrível. – ALGUÉM TRAZ A BOMBINHA PRA ELA! – lagrimas rolavam, imaginar que ela estava ali, sem ar e sufocada. Levantei a cabeça, com o rosto todo molhado e pude ver todo mundo da plateia me olhando. – Vocês... Vocês precisam me ajudar. – Implorei com os olhos e me virei, voltando a "cavar", mas senti uma força maior me puxando e pude ver o túmulo se afastando. – NÃO! ME SOLTA, ME SOLTA! – A dor do grito ecoava por todo auditório.

- Ta bem, cara? - O garoto da primeira fileira perguntou e eu respirei fundo, feliz com o resultado do improviso. - Achei muito da hora, tive que entrar junto.
- Agora eu tô. Valeu pela ajuda! Foi do caralho, sério. - Dei duas batidas no ombro dele enquanto descíamos do palco após agradecer os aplausos.

_____________________________________________________________________________
Notas: -
Música:
Roupa:
with: -
_____________________________________________________________________________


thank you secret from TPO.

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Mensagem por Roman Weidenfeller em Dom Jul 26, 2015 9:06 pm

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Data de inscrição : 04/05/2015

Diretores - Vice

Proud to be Greek
Poets and writers , tragedy and comedy, ancient stuff.


Q
uem entra encontra uma sala de dualidades, a arrumação um tanto quanto exótica era de se chamar a atenção, de alguma forma os trabalhadores da escola e o próprio Sokratis passaram semana em trabalho incessante para deixar a aula mais atrativa. Não foi fácil readaptar o espaço, ainda mais devido o ligamento entre cadeiras e chão, mas abrindo mão de parte do palco, que parecia perder dois terços de seu total, sendo um de cada lado e arrumando painéis enormes de madeira fixados por cabos no teto criava-se então um universo particular para qualquer um que entrasse ali. As paredes seguiam em diagonal até a porta, para entrar passava-se por algo que parecia uma arquibancada improvisada de estruturas de ferro e madeira em forma de degraus. Explicando de um jeito fácil passasse a porta de entrada do auditório e se depara com um corredor, ao seu fim, na  única curva possível pode-se ter visão dos assentos arrumados em escada, como são em um estádio de futebol e na frente o palco, com um pequeno espaço para passagens e transações. O fato era que, de alguma forma muito louca e improvável Sokratis Papastadopoulos e uma equipe recheada de profissionais competentes transformaram o auditório da instituição num verdadeiro anfiteatro, a casa e mãe do teatro grego.

No palco observa-se uma camada branca no chão, provavelmente algum material sintético que trabalhava como tapete, atrás um cenário totalmente arrumado com parte de uma construção clássica ao fundo. Dois andares, bem singelos já que o teto não ajudava muito, mas a construção semelhante à um templo grego já devia dar pistas sobre o que seria aquela aula. Abaixo 5 colunas e acima 2. Abaixo uma varanda coberta e após ela provavelmente os confins do palco que davam também para os camarins e corredores de apoio onde atores saíam e entravam ou apenas se preparavam para sua cena, abaixo apenas uma parede com um fundo falso e muito perspicaz para que se pudesse subir e descer sem ser notado. Claro que muitos detalhes escapavam dos olhos dos observadores.

Com os alunos mais assíduos e alguns costumeiramente atrasados já bem acomodados na pequena obra arquitetônica criada dentro do auditório a ação finalmente começava. O holofote principal e dois auxiliares iluminavam o canto direito do palco, onde sob um tablado de madeira entram 6 figuras barbadas vestindo túnicas de tons foscos e materiais, aparentemente, pesados de tecido pobre. O coro em tom forte lança sua voz: – Acaba de chegar quem tudo nos vai descobrir! Trazem aqui o divino profeta, o único, entre todos os homens, que sabe desvendar a verdade! Entra TIRÉSIAS, velho e cego, guiado por um menino. – da fileira mais alta das cadeiras desce uma figura curvada guiada por outra menor, à medida que se aproximam do palco é possível observar melhor suas fisionomias. A maior tem o corpo todo coberto por um longo manto negro, seu rosto revela alguns traços senis e marcas da idade além da longa barba acinzentada que cobre queixo e pescoço, à frente um menino de túnicas brancas e faixa púrpura na cintura o guia segurando suas mãos, o garoto parece ter algo entre 10 e 11 anos e tem os cabelos formados por longos cachos loiros que por vezes escondem os olhos azuis celeste e algumas sardas. – Escoltam-no dois servidores de Édipo. – anuncia novamente o coro e junto de suas palavras saem por detrás dos confins escondidos além da construção no palco dois homens de porte atlético e barba média. Em suas cabeças elmos de EVA, confeccionados com precisão para parecerem bronze, vestem túnicas simples de cor branca. Numa das mãos carregam lança, na outra escudo e na cintura uma espada.

Do centro, bem detrás da coluna do meio, saí Sokratis. O até então professor de teatro trajava um quiton, a túnica masculina, que ia até os joelhos. Bem folgada perto da cintura e ornamentação de listras azuladas na vertical nos ombros, esse mínimo detalhe mostrava que seu personagem era alguém de posição. Ainda usava algumas peças de joias, destaque para os braceletes reluzentes, os anéis prateados e o colar com pingente em pedra verde feito esmeralda. – Ó Tirésias, que conheceis todas as coisas, tudo o que se possa averiguar, e o que deve permanecer sob mistério; os signos do céu e os da terra... – os olhos focados e as palavras com uma entonação até então diferente já que o texto fugia tanto da narrativa quanto da prosa em si. Ele aproximou-se do homem guiado pela criança, Tirésias, saudando-o. – Embora não vejas, tu sabes do mal que a cidade sofre; para defendê-la, para salvá-la, só a ti podemos recorrer. – indicando para os assentos onde estavam os alunos dava a entender que a própria plateia fazia parte da encenação. Ele deu mais alguns passos à frente, ficando bem no limite do palco e algo os holofotes o focavam, deixando vivo o olho esquerda ainda meio roxeado e o corte em cicatrização acima da sobrancelha direita, detalhas à parte é lógico. – Por Apolo... – rogou – conforme deves ter sabido por meus emissários, declarou a nossos mensageiros que só nos libertaremos do flagelo que nos maltrata se os assassinos de Laios forem descobertos nesta cidade, e mortos ou desterrados. – curiosamente todos em cena utilizavam máscaras de algum material que ainda não ficava claro, nessas máscaras havia o personagem a quem davam vida, sendo a de Tirésias inexpressiva e a de Sokratis com uma expressão séria, em parte só se sabia quem era o professor pois este colocava a máscara à medida que entrava em cena, talvez querendo destacar um determinado aspecto para os alunos. – Por tua vez, Tirésias, não nos recuses as revelações oraculares dos pássaros, nem quaisquer outros recursos de tua arte divinatória; salva a cidade, salva a ti próprio, a mim, e a todos, eliminando esse estigma que provém do homicídio. De ti nós dependemos agora! Ser útil, quando para isso temos os meios e poderes, ë a mais grata das tarefas!  – proclamou Sokratis erguendo os braços ora para os céus, ora para o homem, ele carregava certa agitação, como se deixasse isso exalar a ponto de mostrar-se no jeito que quase atropelava algumas palavras e pelo fato de não parar de andar um segundo sequer.

Oh! Terrível coisa é a ciência, quando o saber se toma inútil! Eu bem assim pensava; mas creio que o esqueci, pois do contrário não teria consentido em vir até aqui. – Tirésias virou-se, agora ficando de frente para a plateia e na diagonal para Sokratis enquanto o garotinho permanecia a seu lado a todo momento, sendo este o único a ter o rosto revelado sem fazer uso das máscaras. – Que tens tu, Tirésias, que estás tão desalentado? – respondeu aproximando-se do tal oráculo e bufando no final da frase como se alguma perturbação o afligisse muito antes de afligir o outro. Tirésias meneou a cabeça para a direção de Sokratis, a sacudiu negativamente e então: – Ordena que eu seja reconduzido a minha casa, ó rei. Se me atenderes, melhor será para ti, e para mim. – o tom não saía como pedido, e sim quase como uma ordem. Indicava que este sabia muito bem dos fatos, mas que abrira mão de revela-los, talvez pelos acontecimentos terem escapado da linha tênue que o destino ou as convenções normais favorecem. – Tais palavras, de tua parte, não são razoáveis, nem amistosas para com a cidade que te mantém, visto que lhe recusas a revelação que te solicita. – Sokratis elevou o tom, brandou como um dragão, mas não podia esconder o ar de súplica. Aproximou-se ficando a menos de dois braços de distância e em suas palavras apontava para o público como se estes fossem os integrantes da cidade que ali se reuniam.

Para teu benefício, eu bem sei, teu desejo é inoportuno. Logo, a fim de não agir imprudentemente... – áspero e sarcástico, este novamente mostrava que dominava a verdade e tendo seu amplo conhecimento insistia na teimosia de manter oculto qualquer sabedoria que pudesse compartilhar. – Pelos deuses! Visto que sabes, não nos ocultes a verdade! Todos nós, todos nós, de joelhos, te rogamos! – o outro soltou os nervos, levou as mãos à cabeça e cerrou os punhos frente ao rosto, deu mais dois passos ficando cara-a-cara com Tirésias e tocou seu ombro. – Vós delirais, sem dúvida! Eu causaria a minha desgraça, e a tua! – decretou dando dois tapas no ombro de seu guia o que indicava para que este começasse sua caminhada. No entanto um mínimo gesto de Sokratis com a cabeça fez com os soldados se colocassem no caminho do sábio. – Que dizes?!... Conhecendo a verdade, não falarás? Por acaso tens o intuito de nos trair, causando a perda da cidade? – em provocação num jogo de excessos ele pesou a mão sobre o ombro do oráculo forçando-o a virar-se, não obstante com certa agressividade capaz de fazer veias do pescoço e do braço saltarem sob a pele, ele segurou a gola do manto do homem cego. – Jamais causarei tamanha dor a ti, nem a mim! Por que me interrogas em vão? De mim nada ouvirás! – respondeu sem parecer se intimidar, para a tristeza ou prazer da plateia naquele momento todas as luzes se acenderam e tanto Sokratis quanto Tirésias retiraram suas máscaras deixando novamente suas identidades à vista e mostrando que a barba de Tirésias não era parte do figurino.

Para por aqui senhores, peço por favor uma salva de palmas para o meu amigo Vern Kidston, seu filho Tom e o grupo Ketai de Teatro Clássico que nos prestigiou nessa pequena introdução à aula de hoje. – tomou a fala e a atenção de todos indicando as 6 pessoas que fizeram o coro e o sujeito chamado Vern que deu corpo à Tiresias. Enquanto os convidados iam saindo do palco Sokratis aproveitou para fazer alguns comentários sobre a aula anterior. - Antes de entrarmos com tudo no assunto de hoje queria mostrar minha felicidade com as performances de vocês na última aula, quem foi original e quem recorreu à obras passadas. Fiquei meio receoso com a tarefa, mas pude notar que não tenho amadores aqui, não tenho coadjuvantes em minha turma, e isso é muito bom. Não quero prender muito à todos, e aos poucos irei reconhecendo as características fortes de vocês, meu plano é seguir o contexto histórico e ir introduzindo as técnicas à medida da perspectiva histórica que elas vão sendo inseridas e descobertas, mas se tiverem dúvidas nesse meio de caminho podem contar comigo. - com isso terminado ele deu uma pequena olhada para trás, notando que seus amigos já trocavam o palco pelas cadeiras. Com todos os convidados devidamente acomodados ou confinando-se no interior do camarim Sokratis saía da introdução para dar o início teórico do encontro de hoje. – Com esses poucos minutos de apresentação alguém por acaso sabe me dizer o que foi encenado aqui na frente? – indagou até que alguém respondesse corretamente “Édipo Rei de Sófocles”, o que originou um sorriso de plena satisfação em meio ao rosto barbado e, agora, aparentemente castigado do docente. – Bem, hoje então falaremos sobre a terra natal da dramaturgia e como se deu o nascimento do teatro grego, afinal a última aula foi apenas uma introdução. – não tinha um jeito dele falar aquilo sem se sentir em casa, primeiro porque era o assunto que dominava e tinha total satisfação em abordar, não somente por ser grego, mas por toda a sua formação acadêmica ter sido especializada para o teatro clássico, em especial às tragédias gregas. – O teatro antigo nasceu na Grécia, como já concluímos na última aula. No entanto a forma de seu nascimento é bem peculiar. Ele se originou das tradições religiosas do paganismo helênico para o deus Dionísio. Onde esses festivais dionisíacos contavam com apresentações de música e dança que passaram a ser melhor elaborados até originar a tragédia grega.

Passou a mão sob os cabelos lisos e ralos, mas tudo que conseguiu foi bagunça-los um pouco. Andou até a ponta do palco onde por fim se sentou. – Como elementos do teatro grego podemos destacar a vivência do cotidiano, todas as obras fazem referência à eventos que ocorreram ou histórias que se mantinham vivas pela oralidade e agora passaram a ser registradas. – exibiu a máscara que usara para a turma – As máscaras, que além de proteger a identidade do ator, também indicavam mudança sentimental e de humor do personagem. Essa forma diferente de atuar e contar, com a presença do coro e seus versos serem recitados e cantados, o que constituí um drama por excelência. Por fim temos os gêneros que se desenrolam: a tragédia e a comédia. Hoje abordaremos a tragédia.

Ainda sentado ele apoiou a máscara no palco a seu lado enquanto gesticulava como se tivesse uma concentração de tragédias entre as mãos. Tratou de se lembrar mentalmente para maneirar do falatório afinal não estava lidando com uma turma de universitários, mas sim de jovens ainda meio impacientes em ouvir e aprender. – A tragédia busca provocar por meio do terror e da compaixão a purificação dos sentimentos, o que chamamos de catarse. Ela é dividia em 3 partes, sendo elas o prólogo, episodio e o êxodo, sendo o primeiro de total responsabilidade do coro, o segundo mesclado e o último sem a participação do coro. Em termos claros, introdução, desenvolvimento e conclusão. – desceu do palco optando por ficar mais próximo da turma e dessa forma, de pé, frente às cadeiras.  – Elas devem conter 3 condições: personagens de condição elevada como reis, heróis e deuses; ser contada em linguagem elevada e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados por seu orgulho ao tentar se rebelar contra as forças do destino. Normalmente o personagem principal é quem acaba se jogando no turbilhão do destino, faz toda a merda, tenta consertar tudo e acaba morrendo de forma trágica. – escolheu uma linguagem informou esperava que todos tivessem também uma identidade mental capaz de lidar com “merda”. – Além do mais a tragédia também busca injetar uma autocrítica e questionamento, em Édipo, quando os gregos a assistiram eles já conheciam o mito. Viram então o autoquestionamento do Édipo, a luta contra o sagrado, já que mesmo não escapando da maldição ele lutou a todo custo para não cumpri-la. – antes de passar a tarefa não podia se esquecer, é claro, de fazer referência aos autores principais. – Nesse gênero destaquemos os autores Ésquilo, Eurípides e Sófocles, além de Homero e Aristóteles que apesar de não serem autores foram quem documentaram e ajudaram à propagar a cultura da dramaturgia grega na era clássica.

Não sabia dizer se a aula havia ficado carregada ou não, acreditava que tinha sido claro em suas palavras, minimizando qualquer problemática e destacando os pontos mais importantes do assunto. Deixou de falar tanta coisa para não ocupar mais tempo ou criar vários nós nas cabeças dos alunos que praticamente se martirizava por dentro e se o corte e os restos do soco do olho já não doessem bastante aquilo certamente doeria mais. Então levantou-se e, ajeitando a túnica, afinal estava muito confortável nela, passou a bola para eles. – O que eu quero agora é que subam no palco, escolham uma passagem de qualquer uma das tragédias e interpretem aqui em cima. – saltou sob o palco com uma proeza verdadeiramente atlética, e voltou com um maço pesado de folhas as quais dividia em montes em cima do palco. – O trecho vocês escolhem, peço apenas no máximo 10 minutos de apresentação. Aqui estão todas as principais tragédias, lá atrás vocês terão figurino e maquiagem, caso achem necessário. Eu, Vern e toda a companhia de teatro faremos o suporte, ou seja, o coro e os personagens secundários. Mas claro se quiserem combinar algo entre si podem ficar à vontade. Então...sejam gregos. – o sorriso maroto de canto brotou feito mágica nos lábios preenchendo o rosto rústico e barbudo de certa irreverência. Adorou a sua última frase, diga-se de passagem.

Tragédias Gregas
Dúvidas, MP.




Limite de postagem da aula: 09/08/2015

The Greek, The Teacher, The Dreamer



Última edição por Sokratis Papastadopoulos em Sab Ago 08, 2015 10:04 pm, editado 1 vez(es)

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Mensagem por Andrew H. Sibley em Ter Jul 28, 2015 9:19 am

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We all need a little of greek art(?)
the class!
O tempo mal havia passado, mas quando eu menos esperava, bang, uma segunda aula de teatro era anunciada por um garoto ao meu lado no refeitório. Perguntei-lhe se ele tinha cem por cento de certeza, e foi quando olhei no celular o calendário e lentamente pus a mão na testa, acordando para a realidade. A antiga aula havia sido proveitosa, eu havia tido a chance de interpretar um personagem que eu mesmo havia escolhido, sem intromissões ou pré-definições de como eu interpretaria a personagem. Podia sentir, no âmago de minha mente agora meio febril e cheia de preocupações, que essa segunda aula certamente teria um grau de dificuldade, visto que a sua primeira aula me pareceu apenas uma introdução, um "Olá" simples dele para nós. Poderia parecer paranoico minha linha de raciocínio, entretanto eu estava acostumado, desde que eu havia começado o ano letivo numa escola na minha cidade natal eu havia aprendido notavelmente rápido o assunto de matemática, para só então na aula seguinte a professora passar três assuntos novos de uma só vez, uma prova surpresa e uma atividade com trinta questões.

Como sempre, calça jeans e camisas confortáveis, nada muito chamativo. Por cima da camisa escura pus uma camisa azul de xadrez, indo para a aula desta vez com uma pequena mochila de lado de couro, onde guardava um caderno de capa dura e canetas para anotações e observações. Após adentrar no suntuoso auditório, automaticamente parei, permanecendo imóvel tentando reconhecer o local. Eu havia entrado na sala errada? Dei alguns passos para trás, olhando ao meu redor; sim, era a sala correta. Erguendo as sobrancelhas franzindo os lábios em forma de desdém, adentrei, ainda cautelosamente, bem na hora certa em que uma suposta peça de teatro começava. Pude reconhecer dentre as figuras a máscula e imensa forma do professor Sokratis, iniciando sem nenhum prólogo uma cena de alguma peça ou livro que infelizmente eu desconhecia. Talvez ainda fosse o sono embargando meu raciocínio, ou talvez fosse simplesmente meu cérebro ignorando tudo que eu via e ouvia, porém infelizmente não entendi muito da peça, talvez por ter chegado depois dela ter sido iniciada. Apesar da pouca compreensão, aplaudi, reconhecendo que o professor sabia atuar bem.

O professor desta vez não poupou seu fôlego, após apresentar os seis amigos que ajudaram-no na sua belíssima performance, logo ele iniciou um prólogo sobre as origens e tradições do teatro, que originalmente foi fundado na Grécia Antiga. Isso fez com que muitos soltassem pequenos xingamentos resignados ou até mesmo reclamações uns com os outros sobre o professor ser adepto do favoritismo. Revirei os olhos, recostando-me numa das cadeiras principais à frente do professor, sabendo que não haveria como evitar o assunto. Afinal de contas, as origens do teatro estão na Grécia, assim como o assunto "política" certamente citaria os romanos e por aí vai. Cruzei minhas pernas, me sentindo profundamente revigorado com seus elogios sobre não sermos amadores e nem coadjuvantes. A comédia e a tragédia provavelmente seriam os temas discutidos e postos à prova nesta aula e, para minha sorte, tragédia foi o tema escolhido.

Não sabia como explicar isto, mas eu possuía genuíno interesse pela tragédia, pelos grandes filosóficos melancólicos e suas teorias e ideias diversas sobre as origens da depressão e da melancolia. Talvez eu fosse depressivo, mas me considerava na maior parte do tempo uma pessoa melancólica cuja inspiração eram os sentimentos ao meu redor, o estudo, a arte de poder expressar-se de diversas formas e de analisar cada forma de vida e cada forma de pensamento afora. Como explicar a magnificência de um pôr-do-sol, com seus fulgentes raios iluminando o céu, ou como explicar a euforia de um dia ensolarado e da brancura da areia sob nossos pés, ou como explicar a imensidão sensação de condescendência ao notarmos sermos pequenas formigas ao avistarmos montes e mais montes afora? Qual era o sentido de tudo? A Mãe Natureza existia? Eu mantinha no rosto um sorriso sereno, apoiando o queixo na mão fechada em punho, quando notei estar divagando demais enquanto o professor falava. "Catarse" rapidamente me fez erguer o olhar, fitando-o curioso, e então minha atenção fora voltada à ele. Por fim, ele explicou como se desenrolava um espetáculo. Pareceu fácil, inicialmente, até termos a proposta pela qual eu já esperava: iríamos ter de interpretar alguma passagem daquelas folhas dadas por ele.

Inflei o peitoral, respirando profundamente e pondo-me de pé, circundando o pequeno movimento e ignorando o burburinho, ora de reclamação, ora de ovação pela tarefa, indo ao palco e indiscretamente pegando com rapidez uma das folhas, passando-as. Não havia peça alguma que eu conhecesse, exceto o nome "Prometeu". Prometeu? Por acaso era a lenda do deus ou mortal que havia dado o fogo exclusivo dos deuses para os humanos, sendo punido severamente por tal ato? Talvez fosse difícil compreender a linguagem formal demais dos gregos, porém talvez eu conseguisse, por acaso, conseguir passar pelas expressões alguma coisa. Pus "Running To The Sea", de Röyksopp, uma música que me acalmava, enquanto eu lia tentando entender aquilo. Como passar sentimentos, emoções, de algo que eu mal entendia? Os papéis indicavam haver mais de um personagem. Droga, eu precisaria de outras pessoas me ajudando? Ótimo, e se elas não pudessem me ajudar ou não quisessem, o que eu faria? Pus a mão na testa pela segunda vez naquele dia, baixando o olhar sentado numa das cadeiras.

O burburinho pareceu aumentar, indicando haver pequenas confusões e mal-entendidos na tentativa frustrante de alguns alunos em entender e tentar praticar as tragédias. Haviam muitas partes interessantes, mas como sempre havia um limite para as apresentações, que neste caso eram dez minuto, o que não seria o suficiente para as conversações intermináveis do início ao fim do livro. A parte das ninfas conversando com Prometeu me pareceu lamuriosa e trágica o suficiente, na medida certa e talvez, no tempo certo. O único problema, talvez, fosse as roupas; no livro não havia narrativa de como eram suas vestimentas, apenas descrevia suas falas, o que dificultaria, porém nada me impediria. Com passos firmes e decididos cutuquei Hanna Campbell*, uma nórdica, que na aula anterior havia interpretado Julieta. Sorri abertamente, oferecendo as folhas que eu havia destacado da pasta de Prometeu.

- Afim de ser uma ninfa? - ergui uma sobrancelha, com sua confirmação logo tratei de segurar sua mão, estranhamente focado demais na aula e na apresentação que faríamos. Logo encontramos mais quatro garotas** dispostas a ajudar-nos, de forma que nosso coro de ninfas teria cinco garotas. Elas usariam vestidos brancos dispostos em baús no camarim, com coroas de flores na cabeça, enquanto usaria unicamente um manto vermelho. Não sabia se isso era o suficiente, mas eu tentaria ao máximo fazer uma boa apresentação.


...


Todos estavam devidamente sentados, incluindo nosso professor Sokratis. Havia uma espécie de rocha falsa no palco, a qual haviam correntes em volta de meus punhos, meus braços estendidos correntes em volta de meus tornozelos. Meu olhar era complacente, triste, quase medonho, fitando o alto. A iluminação era escura, arbustos falsos ao redor indicando um cenário florestal. Como planejado, surgiram as cinco garotas, à frente, Hanna perfeitamente vestida em um vestido branco de seda, mostrando seus braços nus, em sua cabeça uma coroa de flores falsas, porém ainda sim belíssimas. Elas tinham passos leves, como bailarinas, e desfilavam pelos arbustos olhando-nos curiosamente. Parei de olhar então para cima, fitando as ninfas descalças, Hanna entre elas, a única que eu conhecia, porém mantive o olhar de confusão na face, mesclado à vergonha, afinal Prometeu estava atado, acorrentado àquela pedra eternamente.

- Nada temas! É um bando amigo que, trazido pelas asas ligeiras, veio a ter este rochedo depois de haver obtido, a custo, o assentimento paterno. Ventos propícios conduziram-nos a esta montanha. O tinir do martelo chegou a nossas grutas, e fez com que, vencendo os nossos temores, viéssemos descalças, em nosso carro alado. - Suas vozes eram conjuntas, de forma que soassem perfeitamente semelhantes a um coro de ninfas, suas vozes eram agradáveis, ainda bem, agudas e femininas. Além da voz, a aparência as ajudavam no desempenho do papel de ninfas. Suas mãos uniram-se sob seus bustos, penosamente, fitando-me, que, semicerrando os olhos numa careta de dor, movi a mão esquerda, amarrada.

- Ai de mim, fecundas filhas de Tétis e do Pai Oceano, cujas águas circundam a terra, com suas ondas em perenal movimento. Olhai! Vede, os laços por que estou acorrentado a este íngreme rochedo, onde ficarei de sentinela, bem a meu pesar, pelos tempos afora... - minha voz soou firme, elevando seu tom ao "Olhai!", demonstrando toda a determinação e logo a expressão tornava-se ferida, os sentimentos, traídos, desesperança dominava o ser de Prometeu naquele fadado momento. Elas aproximaram seus movimentos, como quem quer ajudar alguém, porém não pode aproximar-se.

- Nós o vemos, ó Prometeu; e uma nuvem de terror, cheia de lágrimas, caiu sobre nossos olhos quando contemplamos teu corpo a arder, preso a este penedo, por essas aviltantes cadeias de ferro. Tudo isso porque novos senhores dominam agora o Olimpo: Júpiter reina de fato por novas e iníquas leis, e procura destruir tudo o que era outrora digno de veneração. - Pesadamente elas falavam, de forma fluente, sem atrapalharem-se em suas falas, porém elas saíam como se houvesse um grande pesar em seus corações, as mãos descendo de seus bustos e segurando seus vestidos enquanto aproximavam-se de nós o suficiente para eu, mesmo de cabeça baixa, poder ver os olhos glaciais de Hanna fitarem-se assim como os das outras ninfas.

- Melhor fora que me precipitassem sob a terra, nos abismos impenetráveis do Tártaro, do próprio inferno de Plutão, destinado aos mortos, prendendo-me por indestrutíveis e cruéis cadeias, lá, onde nem os deuses nem os mortais podem se pudessem alegrar com isso. Mas aqui, exposto ao ar, eu sofro, miserável, suplícios, que são motivos de júbilo para meus inimigos! - as frases foram expostas como uma enorme ferida, meus olhos ardiam enquanto uma pequena comoção surgia em minhas expressões; a de um homem traído e sem esperanças de algum dia ser salvo, que apenas sofria entregando-se ao eterno sofrimento. Eu e Prometeu tínhamos nossas semelhanças, eu podia compreendê-lo, e tudo isso fazia-me sentir-me o mais dentro do personagem o possível.

- Oh, qual dos deuses terá um coração tão duro, que se possa alegrar com tal espetáculo? Qual deles, exceto Júpiter, deixaria de se condoer com teu sofrimento? Irritado sempre, e inflexível, ele não deixará de saciar sua crueldade sobre a raça celeste, até que um esforço feliz lhe arranque um poder infelizmente agora sólido demais! - a lamentação prosseguiu, com direito a uma das ninfas colocando sua delicada mão sob meu peitoral coberto pelo manto vermelho, uma lágrima escorrendo de seu olhar. Sim, as ninfas estavam devastadas com o sofrimento de meu Prometeu, podia sentir em cada olhar delas sua piedade, sua misericórdia incontestavelmente sendo exibidas, e assistidas, por plateia e pelo professor, analítico.

- Certamente, embora acabrunhado pelo peso esmagador destas duras correntes, o senhor dos imortais será coagido a recorrer a mim para saber em tempo qual a nova conspiração que há-de arrebatar o cetro e as honrarias. Mas em vão há-de empregar as mais terríveis ameaças; não lhe revelarei tal segredo enquanto não houver rompido estas correntes e consentido em reparar minha injúria. - Suspirei, soltando um longo e arfado suspiro, recostando a cabeça no falso rochedo e determinadamente fitando-as, que agora pareciam levemente impressionadas.

- Sempre a mesma altivez! Tu não cedes, Prometeu, mesmo no cúmulo da desgraça! Tua voz nada respeita. O terror nos perturba; nós trememos por ti. Receamos que jamais possas ver o termo de teus suplícios. A alma do filho de Saturno é impenetrável, e seu coração, inflexível. - Seus olhares eram os de velhos amigos, reconhecendo a qualidade de Prometeu e sua determinação e altivez para com os deuses, mesmo na desgraça, ainda sim firme em sair dali.

- Júpiter é rígido, bem o sei; sua vontade só, é, para ele, a justiça. No entanto, na iminência de imprevistos golpes, sua cólera indomável se há-de aplacar; e, com tanta solicitude como eu próprio teria, há-de procurar meu socorro e minha amizade. - Calmamente, expliquei a cólera que dominava o ser desprovido de clemência.

- Dize, porém, sem nada ocultar, por que ofensa ofensa tua Júpiter ordenou que sofresses tão bárbaro tratamento? Qual foi teu crime? Fala, se é que isso não venha aumentar o teu sofrer. - Cautelosamente, Hanna pousou sua mão em minha face, recuando assim como as outras calmamente, como se desfilassem, aparentando pesar em suas faces belas. Ergui o olhar, fitando-as.

- Ai de mim! Doloroso será, para mim, irei contar, mas não menos doloroso silenciar; tudo agrava a minha angústia. O ódio acabara de romper entre os deuses em dissídio. Uns queriam, expulsando Saturno, dar o cetro a Júpiter; outros, ao contrário, esforçavam-se por afastá-lo do trono. Em vão procurar dar aos mais prudentes conselhos aos filhos do Céu e da Terra, os Titãs, sua audácia desprezava todo o artifício, toda a habilidade; eles supunham triunfar sem esforço graças a seu próprio poder. Quanto a mim, Têmis, minha mãe, e a própria Terra, adorada sob tantos nomes diversos, me tinham profetizado que, no combate prestes a travar-se, a força e a violência de nada valeriam; o ardil, tão somente, decidiria da vitória. Quando lhes anunciei este oráculo, mal consentiram em ouvir-me! Em tal emergência, pareceu-me prudente, acompanhando minha mãe, adotar o partido de Júpiter, que insistia comigo para que o apoiasse. Graças a mim, e a meus conselhos, foi-lhe possível precipitar nos negros, e profundos abismos do Tártaro, o venerando Saturno e todos os seus defensores. Após tamanho serviço, eis o prêmio ignóbil com que me recompensou o tirano do céu! Tal é a prática frequente da tirania: a ingratidão para com seus amigos... Mas o que tanto quereis saber: a causa do meu suplício, eu direi agora. - A expressão em minha face era a mais determinada possível, explanando e exteriorizando toda a angústia que Prometeu agora sentia. A traição era uma das piores dores, e Prometeu agora a demonstrava.

- Logo que se instalou no trono de seu pai, distribuindo por todos os deuses honras e recompensas, ele tratou de fortificar seu império. Quanto aos mortais, porém, não só lhes recusou qualquer de seus dons, mas pensou em aniquilá-los, criando em seu lugar uma raça nova. Ninguém se opôs a tal projeto, exceto eu. Eu, tão somente, impedi que, destruídos pelo raio, eles fossem povoar o Hades. Eis a causa dos rigores que me oprimem, deste suplício doloroso, cuja simples vista causa pavor. Porque me apiedei dos mortais, ninguém tem pena de mim! No entanto, tratado sem piedade eu sirvo de eterna censura à prepotência de Júpiter! - naturalmente, haviam mais umas cinco páginas de atuação, que eu havia lido com as garotas que interpretariam as ninfas, entretanto, as falas tornavam-se longas; dez minutos não bastariam então apenas elevei o olhar, fitando o céu imaginário enquanto as luzes lentamente apagavam-se ao findar dos dez minutos que esgotavam-se. Sorri, enquanto me desprendia das falsas cordas leves e agradecia as ninfas, em especial Hanna, já conhecida por mim brevemente.

Assenti para o professor Sokratis, descendo do palco e por fim caminhando até as cadeiras, sentando-me em uma delas, achando a apresentação não totalmente completa, entretanto, havia talvez mostrado com ela um pouco de talento, pelo menos. Eu tinha no fundo um pouco de esperança, um pouco de determinação, igual Prometeu, de que seria recompensado justamente. Sorri levemente, me pegando de repente sentindo misericórdia do icônico personagem. Cruzei as pernas, atentando-me às próximas apresentações.




* Hanna Campbell irá postar nesta aula me ajudando, de forma como será mais ou menos uma espécie de dupla na apresentação, espero que não se importe.
** As quatro garotas são NPC's, usei-as pois um coro de ninfas apenas com uma ninfa não funcionaria, certo? Espero que não se importe.

I'm with teacher, Hanna and the students, and i'm wearing this. I'm Andrew.



Última edição por Andrew H. Sibley em Sex Ago 07, 2015 6:46 pm, editado 1 vez(es)

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Mensagem por Pietro Bertolazzo em Ter Jul 28, 2015 9:52 pm

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My own greek tragedy...

"Oh and she hits like ecstasy
Comes over, bangs the sense out of me
It's wrong, but surely worst to leave
And she hits like ecstasy
So free up the cheaper seats
Here comes the greek tragedy..."



IRONICAMENTE, ESSA MÚSICA SE CHAMA GREEK TRAGEDY -Q


O toque de "Balaclava" marcava o início de mais um dia de aulas na Weston Academy. O que tínhamos para hoje? Ah, uma das minhas aulas preferidas: teatro. Levantei-me rapidamente da cama ao me lembrar da aula marcada para aquele dia. Ao contrário do meu primeiro dia no palco do auditório, hoje eu estava me sentindo muito bem, principalmente depois de uma bela noite de sono.

Tirei o shorts que eu usava para dormir e, completamente nu, entrei no banheiro, onde tomei um banho rápido e fiz a minha higiene bucal completa. Penteei meus cabelos cuidadosamente e abri o guarda-roupa, encarando meu reflexo no espelho interno. Eu era mesmo um gato até quando estava pelado. Enfim, comentários desnecessários à parte, peguei uma camiseta vermelho-cuba chamativa e a vesti, combinando com uma calça jeans azul-escuro e meus clássicos tênis All Star. Pela primeira vez, o primeiro conjunto de roupas que escolhi, foi o definitivo, de modo que eu saí do quarto mais cedo do que o previsto. Apenas me perfumei bem antes de ir para o auditório.

Ao contrário das minhas expectativas, Sokratis (que eu aprendi a escrever e falar ao menos o primeiro nome) não estava lá, parado como uma estátua. Logo que entrei no auditório, dei de cara com as cadeiras totalmente desarrumadas, ou melhor dizendo, rearrumadas, como se aquilo fosse um anfiteatro grego. No centro, onde deveria ser o palco, vi um lugar perfeitamente arrumado com um cenário típico dos teatros da Grécia Antiga. Tudo ali fora feito para simular um templo ou um palácio grego. Não parei para reparar muito nos detalhes, mas eu me sentei no primeiro banco da "arquibancada", sentindo-me num local completamente diferente do colégio com o qual eu estava acostumado. Essa era a verdadeira magia do teatro.

Conforme os outros alunos iam chegando, eu podia ver suas expressões surpresas e fascinadas com tudo aquilo. Não eram muito diferentes das minhas, afinal, meus olhos chegavam a brilhar de encanto e excitação com tudo aquilo e eu podia me imaginar utilizando-me daquele cenário em um teatro.

--------

De repente, as luzes se apagaram e um holofote focou no canto direito do palco. Uma encenação se iniciou ali, de modo que todas as atenções se voltaram para lá. Um coro começou a anunciar a entrada de algum personagem, chamado Tiresias. Esse nome vagou cada canto de meu cérebro, até finalmente atingir alguma coisa na minha memória. Com um estalar de dedos, me lembrei: Édipo Rei. Era uma tragédia grega, uma das mais famosas de toda a história do teatro. Lembro-me que no antigo colégio, fiz um trabalho sobre esta peça e outras tragédias, mas nunca cheguei a encená-la.

A peça continuou, com Sokratis interpretando o próprio Édipo, vestido em roupas de reis gregos. Não posso descrever muitos detalhes da peça, mas garanto que aplaudi de pé. Afinal, eu não poderia esperar nada melhor de um professor de teatro, certo?

Depois da apresentação, ele nos passou a atividade do dia. Após uma explicação bem completa sobre como funcionavam as tragédias gregas, Sokratis nos disse o que fazer: nada mais, nada menos que encenar um trecho de qualquer tragédia. No momento que ouvi aquilo, senti minha mente trabalhar com fúria... eu iria encenar a minha tragédia grega favorita! Tínhamos nossos amigos e uma equipe de apoio à nossa disposição.

A peça que eu escolhera foi Hipólito, de Eurípedes. Além de ser a minha predileta, também era a que eu mais me recordava da história. Resumidamente, Hipólito era um servo de Ártemis. Um dia, Afrodite se apaixonou por ele, mas foi rejeitada, então a deusa do amor traçou um plano maligno, fazendo com que a madrasta de Hipólito se apaixonasse pelo enteado e também fosse rejeitada, acabando por se suicidar e culpar o caçador por sua desgraça. Teseu, o pai de Hipólito e marido da falecida Fedra, fica sabendo disso e manda que Poseidon lance uma maldição sobre ele, para que morresse de forma trágica. Depois que o filho está morto, Ártemis revela ao rei toda a verdade.

Assim que ele nos liberou, corri atrás de uma das minhas melhores amigas naquela fraternidade Greek: Jennifer van der Poll. Era uma garota loura, extremamente inteligente e muito talentosa quando se tratava de teatro. Pensei em chamar Hillary, mas acreditei que ela iria preferir fazer a peça com seus outros amigos.

-Jenn, vamos encenar Hipólito? Eu imploro, por favor... - Pedi, fazendo minha "cara de lindo" para ela.

-Ok, poupe seus esforços, Tortinha. - Ela disse, rindo. - Vamos encenar.

-Eu vou ser Teseu, você a serva e... busque alguém para ser Fedra e um guarda. Procure na equipe de apoio.

-Certo. - Ela concordou, depois foi atrás de alguém para nos ajudar.

Peguei algumas folhas de papel e uma caneta, logo começando a escrever o roteiro. Enquanto isso, eu via a minha amiga procurando desesperadamente por ajuda. Eu decidi que narraria apenas o fim da peça, quando Hipólito é morto indiretamente pelo próprio pai, que no caso, seria eu. Não liguei muito para a boa caligrafia, pois eu queria ser o primeiro novamente.

...

Algumas horas se passaram. O roteiro estava pronto e Jennifer havia ido levá-lo até a gráfica da Weston para tirar algumas cópias. Enquanto isso, eu me reunia com nosso elenco de apoio, consistente em um casal de namorados chamado Blair e Kenny. Os dois pareciam dispostos a ajudar e seguir as ordens do diretor (também conhecido como: eu).

-Blair, você sabe fazer falsete? Preciso que você interprete duas personagens para mim, no entanto, apenas a voz.

-Claro que sei - Ela disse. - É muito fácil. - Ela respondeu, num tom de voz totalmente diferente.

-Ótimo, você será Fedra e Ártemis. O script está com a Jenn, ela logo trará para você. - Falei e respirei fundo. - Ah, encontre alguma música que ambiente a peça e um som de terremoto também.

-Ok.

-Você, Kenny, irá interpretar um guarda, ok? Suas falas serão pequenas. Na maior delas, você só anuncia que Hipólito morreu.

-Bem, acho que posso fazer isso. - Ele respondeu. - Eu topo.

-Você não tinha opção, mas tudo bem. - Respondi, num tom quase desesperado. - Vamos esperar Jennifer voltar.

Eu realmente ainda tinha esperanças de ser o primeiro a se apresentar, mas dois alunos da fraternidade Nordic conseguiram terminar primeiro. Infelizmente, meu grupo ainda tinha que escolher o figurino e montar o cenário. Sokratis ordenou que todos nós nos sentássemos para assistir a apresentação. Obedecemos, mesmo que sob protesto.

Sentado em meu lugar, não prestei atenção a nenhum segundo da peça apresentada. A todo momento, eu cochichava com Jennifer, os preparativos finais da nossa apresentação. Quando finalmente, depois de dez minutos, a apresentação inimiga acabou, voltamos aos nossos lugares. Eu e a loura corremos para os camarins, onde encontramos tudo o que precisávamos: duas túnicas, sendo uma delas dourada e brilhante como a de um rei, uma coroa de EVA e papel laminado dourado, cravejada com pedras preciosas coloridas de plástico e uma armadura de papelão. Havia outras armaduras, mais bonitas, mas nós não conseguimos encontrá-las.

Blair foi avisar Sokratis que nossa apresentação estava pronta para começar, enquanto nós vestíamos o figurino. Repassamos rapidamente todas as falas, que não eram muitas, e finalmente, fomos autorizados a montar o cenário. Nós usaríamos apenas o trono que o professor usara em sua apresentação, uma mesa coberta por um pano branco e uma plataforma de madeira para apoio. Suspirei, muito nervoso, e finalmente entrei no palco, depois que os contra-regras saíram.

--------

A música escolhida por Jenn começou a tocar e ecoar por todo o auditório, as cortinas se abriram e eu pude ver a plateia me encarando. Eu estava sentado em meu trono, coroado e vestido em túnicas douradas. Cá entre nós, mesmo que fosse um teatro... era bem legal me ver naquele estado. A música parou e Jennifer entrou correndo pelo palco, aparentando estar desesperada. Como era apenas um trecho, precisei mudar as falas do roteiro, para que a peça ficasse bem contextualizada.

A garota loura, vestida também em uma túnica branca e descalça, fez uma reverência à mim e virou-se para a plateia, a fim de ter melhor alcance de voz.

-Oh, meu rei Teseu! - Ela começou - Trago-lhe péssimas notícias! Tua esposa, a honrável Fedra, tirou de si a própria vida!

-Maldição! - Gritei, a interrompendo. - Estás mentindo!

-Falo a verdade, meu rei! - Jennifer, ou melhor, a ama, reagiu. - Tua amável esposa deixou-lhe esta mensagem, para que tu lesses.

A garota entregou-me uma folha sulfite que fora cuidadosamente amassada e mergulhada em borra de café, para dar a impressão de um papel antigo. Comecei a ler, a mensagem, tornando minha expressão cada vez mais assustada e raivosa. Blair começou a falar no microfone, oculta do palco, simulando a voz de Fedra.

"Infeliz de mim! Desgraçada de mim! Apaixonei-me logo por Hipólito, meu enteado. Logo eu, que tanto amor poderia dar à meu marido, fui vítima de pecado tão terrível. Amaldiçoada vida que levei. Decidi pôr fim ao meu sofrimento e adentrar as portas de Hades! Lá estarei livre de meu pecado! Pobre de mim!"

Assim que a minha amiga acabou de narrar a mensagem, aproximei-me da plateia a passos pesados. Encarei os alunos ali presentes e percebi que muitos nem eram da aula de teatro, mas acharam interessante a ideia de Sokratis. Tomei para mim as dores de Teseu e deixei que me rosto enrusbecesse de raiva.

-Maldito seja Hipólito! - Gritei, com ódio. - Jovem infeliz, filho inútil! Nada me trouxe além de males e sofrimento!

Dei as costas para a plateia, numa meia-volta brusca e andei para um pouco mais longe do público. Voltei-me para eles novamente e chamei os meus servos.

-Guardas! - Gritei novamente. - Depressa, guardas!

Kenny apareceu correndo, vestido em uma espécie de armadura de papelão embrulhada em papel laminado. Ele não era exatamente "guardas", mas eu tinha poucos atores à disposição. Ele me encarou e se ajoelhou à minha frente, apoiando-se em sua espada, num sinal de submissão.

-Em que posso lhe ser útil, ó grande rei Teseu?

-Fui covardemente traído por Hipólito, meu desprezível filho! Eu ordeno que todos os guardas o persigam e matem-no!

-Imediatamente, majestade! - Ele respondeu e saiu do palco.

As luzes se apagaram e a cortina fechou-se. Eu tinha pouco tempo para me preparar para a próxima cena. Respirei fundo, tirei a minha coroa e repassei todas as falas enquanto os contra-regras montavam um cenário precário, retirando o trono dali e colocando uma mesa que deveria servir de altar.

Logo a cortina abriu-se para o segundo ato. Dessa vez, eu seria o único ator na cena. Eu deveria pedir a meu pai, Poseidon, que perseguisse Hipólito e o matasse. Essas tragédias são realmente bem trágicas. Dã!

Ajoelhei-me em uma espécie de plataforma atrás do "altar", para que eu não ficasse oculto por ele. Fechei os olhos, o que tornou a tarefa de lembrar das falas algo um pouco mais agradável, então comecei a fazer meu pedido.

-Grande e temível Poseidon, meu venerável pai! Prometestes a mim a realização de três desejos! Pois agora peço-lhe um deles! Meus guardas perseguiram Hipólito por dias, mas Ártemis o protege de todas as formas! - Fiz uma pausa e suspirei, elevando o tom da minha voz. - Rogo-lhe que lances uma maldição sobre o infeliz de meu filho e mate-o! Imploro-lhe, como teu filho que sou, respeitável senhor dos mares.

Um barulho de terremoto (que mais parecia um trovão) ecoou por todo o auditório e as cortinas mais uma vez se fecharam. Saí da plataforma e o altar foi levado embora, assim como meu trono voltou. Vesti novamente a coroa e assentei-me no meu lugar de rei. As luzes se acenderam e as cortinas se abriram pela última vez.

Kenny voltou, vestido em sua armadura. Assim como Jennifer, ele fez uma reverência à mim e depois virou-se para a plateia, para dizer a sua fala.

-Oh, meu grande rei! Trago-lhe notícias maravilhosas a respeito do que nos ordenastes!

-Diga-me, sem demora, meu servo! - Pedi, com cara de tédio.

-O traidor Hipólito sofrera um acidente com a própria carruagem. Ele está morto e foi vítima de uma morte violenta, como se fosse uma maldição!

-Isto é maravilhoso, meu criado. - Comentei, levantando-me do trono. - Anuncie isto ao povo, para que vejam o que acontece aos traidores.

Depois que Kenny se retirou do palco, novamente me aproximei do público e falando sozinho, concluí minha última fala.

-Hipólito pagará pelo mal terrível que fez, nos Campos da Punição. Será eternamente castigado no Mundo Inferior. - Terminei, exibindo meu sorriso mais maléfico. - É isto que acontece aos traidores.

Enquanto eu dava as costas para a plateia, Blair voltou a falar ao microfone, dessa vez em falsete, para simular a voz da deusa da caça, Ártemis, a padroeira de Hipólito.

"Cometeste um erro terrível, Teseu! Tu fostes um mero personagem de um plano terrível de Afrodite, a deusa que se apaixonou por teu filho e servo meu e fora rejeitada. Ela mesma mandou que o filho, Eros, lançasse uma flecha em tua esposa, Fedra. Por culpa desta maldita deusa, a pobre mulher apaixonou-se por teu filho, Hipólito. Recusou-se a dizer-lhe a verdade na mensagem deixada a ti, rei Teseu. Mataste teu próprio filho! Matastes um mortal inocente!"


Então, de costas para o público, caí de joelhos no chão e dei um grito muito alto. Um grito de desespero, dor e tristeza. Acho que angustiei a todos os espectadores. Em seguida, deixei que meu corpo caísse no chão, como se desmaiasse. As luzes se apagaram e o espetáculo chegou ao seu fim, passando apenas dois minutos do estipulado pelo professor.

--------

O roteiro não foi o original, mas convenhamos que era necessário fazer algumas adaptações para que tudo fizesse sentido. Eu, particularmente, havia gostado da peça que eu fiz com apenas quatro pessoas. Sokratis nos dispensou, mas eu decidi ficar, para ver as outras apresentações e ajudar os outros Greeks. Fiquei feliz por receber vários elogios de meus companheiros... parece que eu, mais uma vez, havia arrasado.

 

valeu @ cács!


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Mensagem por Avalon M. Vygotsky em Seg Ago 03, 2015 10:41 am

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Primeira Aula de Teatro.
{Monólogo de Medeia. }
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“ Sejam gregos? Bem, esse já era o nome da minha Ordem. O resto não devia ser tão difícil...”

Eu sabia que estava atrasado, mas naquele dia estava sendo especialmente difícil levantar da cama. Bocejando e esfregando os olhos para espantar a sensação de areia nas íris, arrastei-me até o banheiro no corredor do segundo andar. A maioria dos outros membros da minha ordem já devia estar de pé, preparando lições para suas aulas ou frequentando alguma de suas atividades extras. Eu, por sinal, também tinha muito que fazer naquela primeira semana de aulas. Eu me inscrevera para as aulas de teatro, mas não tinha qualquer experiência com interpretação, além do que eu lera com mamãe. Ela era uma boa atriz, mas abandonara tudo quando seus livros começaram a vender bem. Aquelas aulas seriam a minha chance para descobrir se o seu talento fora absorvido por mim, de forma hereditária. Algo raro, mas que de vez em quando podia rolar. Tomei um banho apressado, secando-me bem e vestindo uma sunga boxer com o símbolo do Batman no traseiro. Eu adorava aquelas roupas geeks, como um tipo de piada interna. Meu estilo pessoal era bastante peculiar, e acho que isso se devia principalmente à minha criação reclusa, longe de outros jovens. Estudar em casa, recebendo tudo o que você pudesse pedir como compensação por não ter amigos, acaba te fazendo ter outras ocupações. A moda era uma delas, para mim. Mas apenas para diversão.

Vestindo meus All-Stars azuis, calças jeans pretas bem apertadas, e uma blusa de The Big Bang Theory, encarei-me no espelho. Não estava mal, mas faltava alguma coisa. Afinal, eu estava indo para a aula de teatro, precisava parecer um ator. Revirando uma das minhas gavetas, tirei um dos meus pares de óculos escuros. Aquele Maui Jim era exclusivo, e um presente de despedida da minha mãe. Claro, porque vindo dela, conseguir um abraço seria muito mais difícil, do que um par de óculos de cinco mil dólares. Ao menos ela tinha bom gosto. Sentindo-me finalmente completo, apanhei a bolsa de couro com minhas iniciais e corri para a aula, revirando o panfleto que eu recebera no dia da inscrição. Pelo que parecia, aquele curso de teatro já havia começado, e eu estava entrando numa turma que já tinha algum tempo de entrosamento. Aquilo me deixou nervoso, principalmente por causa da minha narcolepsia. O lado bom, era que por eu ter acordado tão recentemente, não precisaria me preocupar com crises de sono durante a aula. Apressado, e dobrando os corredores como se estivesse numa maratona olímpica, tentei aprender ao menos o nome do professor. Sokratis... O quê!? Que porcaria de sobrenome era aquele?

Convencido de que simplesmente não conseguiria pronunciar aquilo tão cedo, finalmente encontrei a entrada do auditório. Entrando silenciosamente, tomei o cuidado de não atrapalhar o andamento das coisas, pois o professor já estava se apresentando. Ele era mais bonito do que pela foto que eu havia visto, e parecia bastante empenhado em sua interpretação do texto de Édipo Rei, de Sófocles. Umas das tragédias favoritas de mamãe, que ela me fizera memorizar quase à exaustão, durante minhas tardes com os tutores. Enquanto eu me acomodava, gostei de lembrar sobre a forma egoísta com que ela controlava tudo o que eu deveria estudar. Curioso, mas não inteiramente surpreso, gostei da caracterização da nossa sala de aula, que adquirira fortes traços gregos, com as famosas colunas e a posição do palco. Quase como uma Ágora, o auditório fora trabalhado para habilmente nos transportar até a Grécia Antiga. Durante os minutos seguintes da apresentação de Sokratis, quase esqueci que estava em uma aula, e absorvi sua habilidade. Ele era bom em expressar seus sentimentos, e a equipe de apoio backstage estava sendo pontual e precisa. Sem exagerar em seus gestos, ele encerrou sua breve introdução. Ele apresentou o grupo Ketai de Teatro Clássico, e aplaudi junto dos outros, totalmente deslumbrado com tudo aquilo. Era como largar uma criança numa loja de brinquedos, dizendo que ela poderia pegar o que quisesse. Seria extremamente difícil para mim, me apresentar como se estivesse no mesmo nível que pessoas como aquelas. Só esperava que ninguém risse de mim, pois com o meu nível de autoestima e confiança, sentia constantemente como se talvez eu devesse ter escolhido outra atividade extra no lugar daquela. Mas o teatro se tratava disso, não era? Explorar nossos medos, e vencê-los no palco. Como exorcizar demônios pessoais. Se eu seguisse o que me fosse pedido, e me lembrasse de tudo o que já havia lido, talvez não fosse tão mal.

Um sorriso se formou nos lábios do professor, quando ergui a mão e respondi corretamente o nome da peça que havia sido apresentada. Bem, ainda que eu não tivesse ouvido tudo desde o início, lembrava-me bem da cena entre Tirésias e Édipo. Aliás, aquele era o tipo de tragédia grega que mamãe mais gostava. Para mim, meio que ia contra a visão pessoal que eu tinha de Afrodite. Como pode a deusa que simboliza o amor, ser tão demoníaca? Se bem que, considerando os traços de personalidade dos deuses gregos, não era difícil reconhecer que eles eram bem mimados. Em qualquer mitologia, aliás. Gostei da introdução à aula, mas principalmente da explicação que veio a seguir. Eu sabia um pouco sobre as origens gregas do teatro, de modo que a aula que eu perdera não me fazia tanta falta. Mas a comédia e a tragédia, os aspectos religiosos das representações para Dionísio, e as especificidades daquelas peças, ainda me eram obscuros. Quando o professor sentou-se no palco e retirou a máscara trágica que usar, exibindo-a para nós, tive de conter um sorriso. Ele era mesmo bonitão. Era interessante analisar que, pelo teatro na Grécia Antiga ser composto apenas por homens, era importante o uso das máscaras, para manter o ator desvinculado do papel. Era o princípio da “magia do teatro”, o famoso modo de fazer com que os outros acreditem no cenário estabelecido, e mergulhem na narrativa. Anunciando que a tragédia seria o nosso ponto de partida, Sokratis estabeleceu para nós os requisitos trágicos e suas funções, além de nos explicar sobre a forma com que o teatro era usado para questionar e criticar o cotidiano da época. Essa era uma prova do que eu sempre ouvira nas aulas de filosofia. Ainda que os gregos estivessem sempre atrelados às suas mitologias, eles sempre valorizaram a liberdade do pensamento crítico, travestindo-o de teatro para que a possibilidade de questionar o divino fosse aceita.

Ele ainda mencionou os principais autores trágicos, e percebi que já os conhecia. Ainda refletindo sobre o que o professor dissera antes, achei que aquela aula havia começado intensa, para dizer o mínimo. Com tanto conteúdo, quase entrei em pânico. Principalmente porque ele dissera que esperava conhecer nossos pontos fortes aos poucos, e saber melhor como nos saíamos. Bem, e se eu não tivesse ponto forte nenhum? Passaria o resto daquele curso interpretando árvores, ou objetos de cenários que se movem. Nervoso, além de ansioso pela lição que ele nos pediria, eu comecei a suar. Ele se levantou, finalmente explicando que deveríamos interpretar uma passagem trágica dos clássicos gregos. Aquilo bastou para me tranquilizar um pouco. Não seria difícil recordar uma delas. A verdadeira questão era que eu não tinha amigos por ali. Não conhecia bem nem mesmo os alunos da minha ordem. Eu teria de interpretar um monólogo. Precisava me destacar, e deixar uma boa impressão. Então deveria de ser um personagem forte, marcante. Com um monólogo incisivo, suficiente para imprimir todas às nuances do personagem naquele curto espaço de tempo. Isso me daria muito em que pensar. Enquanto grupinhos reuniam-se para decidir o que fazer, e outros corriam para pegar os exemplares dos roteiros trágicos que o professor mostrara, eu peguei meu caderno na bolsa e uma caneta preta. Batendo com ela contra o papel, estava pensando em como me apresentar sozinho, sem ter de me preocupar com um trabalho extenso de figurino, maquiagem, cenário ou música. Aquela era a maior vantagem de um monólogo. Seríamos só eu, e os espectadores. Sendo meu próprio diretor, tudo em que eu teria de pensar era na minha caracterização, e na minha movimentação de palco, pra não ficar estranho. Ironicamente, agradeci minha mãe pelo vício na Broadway, e por ter nascido em Nova York. Se aquilo não fosse algum tipo de vantagem, então eu não sabia o que era.

Com um sorriso tímido no rosto, escrevi “Medeia” na minha folha em branco. Se eu queria chocar e causar uma impressão forte, seria com aquela personagem. Uma protagonista vilã, cheia de falhas humanas e fúria. Era a minha tragédia favorita, então ou eu iria muito bem, ou muito mal. Aquela era a tragédia que eu melhor conhecia, também. Seria mais fácil memorizar o texto. Além disso, um homem interpretar um papel feminino era o usual na Grécia Antiga, e eu queria mostrar aquela vertente. Usaria a máscara trágica sobre o rosto, o que me pouparia tempo com maquiagem. Havia perucas e também adereços próprios com a equipe de figurino, então me tranquilizei após encerrar meus planos. Caminhei até o local em que o professor se sentara, e apanhei o texto de Medeia. Ele olhou para mim com uma expressão de interesse misturada à curiosidade. Sorri para Sokratis, e o cumprimentei com um gesto de cabeça, voltando para o meu lugar mais acima, afastado do palco. Enquanto eu lia meu texto (a cena do primeiro monólogo de Medeia), usando a repetição para memorizá-lo, alguns nordics encerraram seus preparativos. A primeira apresentação iniciou-se, e aos poucos reconheci as linhas de Prometeu. Mas sem uma introdução, a cena ficou solta, de difícil compreensão. Ainda assim, o rapaz chamado Andrew era muito bom, e parecia estar dando tudo de si no papel. Aquilo suspendeu a minha crítica, e pude aproveitar o trabalho dos meus colegas.

Incomodado, escutei alguns sussurros partindo dos meus colegas de ordem, e esperei que o professor não estivesse ouvindo. Ainda que eu entendesse o nervosismo com aquele tipo de apresentação, achei falta de respeito com os nordics. Eu me sentiria ofendido se estivessem conversando durante minha apresentação. Ainda assim, tudo ocorreu bem para eles, e logo o grupo de greeks estava assumindo o palco. Desviando minha atenção entre os espetáculos e minha própria tarefa, decidi que já havia feito algumas adaptações necessárias no texto de Medeia, e escrito uma introdução decente para o meu monólogo. Quando ergueram as cortinas outra vez, um menino bonito da minha ordem chamado Pietro, estava caracterizado como Édipo, sentado em um trono. Tive de reconhecer que havia sido uma escolha esperta, usar da tragédia escolhida na introdução do professor. Observando enquanto o espetáculo se desenrolava, fui aos poucos me perdendo naquelas cenas, lembrando-me do texto original. Ainda assim, estava incrível. Principalmente porque as mudanças feitas traziam certo sentido à coisa toda, e explicavam a história de forma mais acessível. Eles não eram amadores, sabiam o que estavam fazendo. Tanto que quando terminaram, tive de aplaudir. Fora simplesmente fantástico. Nenhum de nós percebera que eles haviam estourado o tempo. Exceto talvez, o professor, que o estava cronometrando. Meio inseguro, eu acabei percebendo que os greeks de teatro tinham certo ar superior, e não gostei muito deles. Ainda que tecnicamente, eu fosse um deles.

Levantando-me, fui de maneira tímida até o professor, para anunciar que estava pronto. Ele parecia surpreso por eu ter escolhido trabalhar sozinho na minha primeira aula, mas a verdade é que eu não tinha muita escolha. Envergonhado daquele jeito, não conseguiria chegar até alguém e convidar para fazer dupla, ou grupo. Preferi me dar mal sozinho, também. Seria melhor do que prejudicar alguém com minha falta de experiência. Ele perguntou se eu precisava de alguma ajuda, mas disse que leria apenas uma breve introdução, e então deixaria o palco por breves instantes, para me caracterizar. Acho que Sokratis sentiu pena, pois se ofereceu para ler o meu texto, antes da minha entrada. Concordei, simpatizando-me com aquele homem excêntrico com sotaque divertido. Sem querer perder mais tempo, corri para os bastidores, onde os auxiliares de Vern começaram a me ajudar com o figurino. Uma garota colocou uma peruca de cabelos negros em mim, com adereços dourados em estilo grego. Um garoto me ajudou a vestir uma toga feminina com um forte tom de vermelho, com traços de dourado. Eles cobriram meu rosto e braços com pó de arroz, e passaram uma maquiagem preta profunda nos contornos dos meus olhos, para causar a sensação de profundidade sob a máscara trágica. Tendo uma ideia de última hora, Vern aproximou-se de mim e sugeriu que eu tivesse duas faces para Medeia. Então, encaixei duas máscaras trágicas no rosto, uma sobre a outra. Aqueles caras eram incríveis. A Ketai sabia mesmo das coisas...

Medeia: Episódio Um – Monólogo de Medeia.

Antes de entrar no palco, respirei profundamente, e repassei o texto mentalmente. Criando a penumbra que eu solicitara pra o meu monólogo, a equipe de iluminação abafou a luz do auditório. As máquinas de fumaça começaram a lançar brumas ao redor, enquanto eu aguardava atrás da cortina. Ouvindo passos sobre o palco, imaginei que Sokratis estava preparando-se para iniciar a introdução do meu trecho. Não era propriamente um papel, apenas um artifício para situar os espectadores, mas pela sua apresentação prévia, Sokratis faria um ótimo trabalho.

- O trecho a seguir, refere-se à tragédia Medeia. Para o Teatro Grego, esta tragédia teve um papel revolucionário, por referir-se à mulher como centro da narrativa pela primeira vez. Transgressora, feiticeira e odiosa, Medeia trazia consigo os piores medos do homem grego. Tomada por esposa por Jasão, ela foi trazida da Cólquida. Graças à sua magia e astúcia, o herói grego e seus Argonautas conquistaram o Velocino de Ouro, e seu reino. – Sokratis deu uma pausa, certamente deixando que a audiência absorvesse as recentes informações. –Mas a felicidade da filha de Hécate durou pouco. Jasão escolheu casar-se com a filha de Creonte, tornando-a sua nova rainha. Medeia seria então, banida do reino. Mas não sem antes vingar-se...

Era a minha deixa. Um fundo musical de tom sombrio lançou sobre a penumbra as fortes nuances de um fulgor fantasmagórico. As cortinas se abriram e caminhei lenta e pausadamente, até o centro do palco. De cabeça baixa, deixei que os longos cabelos da peruca grega caíssem sobre meus ombros também curvados. Era a imagem de uma mulher derrotada, fraca e sem esperanças. Segurando minhas vestes vermelhas, ainda caminhei lentamente ao redor do espaço, deixando que o impacto de minha figura atingisse os outros. Eu devia parecer um pouco assustador, tão branco. Quando a música ergueu-se, num solo de violino perturbador, levantei o rosto para que a iluminação focalizasse na máscara trágica que eu vestira.

- “Saí de casa, ó mulheres de Corinto! Porque eu sei que muitos dentre os mortais são arrogantes, uns longe da vista, outros à porta de casa. Porque não há justiça aos olhos dos mortais. Se alguém antes de bem conhecer o íntimo do homem, o odeia só de o ver.” – Declamei, erguendo minha voz ao adicionar sobre ela tom gutural. Resolvi que não forçaria um tom feminino, porque minha voz já era naturalmente suave. Talvez eu fosse até mesmo apático. Isso tornava mais fácil imprimir um tom andrógino a mim. – “Sobre mim este feito inesperado se abateu, que a minha alma destruiu. Fiquei perdida e tenho de abandonar as graças desta vida para morrer, amigas. Aquele que era tudo para mim (ele bem o sabe) no pior dos homens se tornou - o meu esposo.” – Agora, eu já estava mais próximo do público, movendo minha cabeça e corpo para que a máscara estivesse sempre direcionada para a plateia, e nunca fosse vista de perfil, ou eles perceberiam as máscaras sobrepostas.

A música retornou, e mais uma vez caminhei, agora usando minha linguagem corporal para expressar revolta e as mudanças na atitude de Medeia. Ainda que se sentisse miserável e rejeitada, dela surgiria um ímpeto devastador, capaz de devorar o reino com sua loucura. Então, era hora de erguer os ombros, e estufar o peito. Com um gesto rápido, puxei a longa túnica vermelha para o lado, enquanto virava-me para o público mais uma vez. Mas agora, eu tinha a peruca cobrindo meu rosto, bem a tempo de arrancar a máscara superior, e atirá-la longe. Esta tinha um semblante triste e horrorizado. A que estava por baixo, ainda trágica, parecia furiosa. Assustadora. Olhando para a plateia, encarei Sokratis por meros segundos. O que eu sentia naquele momento, nunca sentira antes. Um aperto no peito, recheado de um sentimento bom. Como se eu não estivesse realmente ali, mas observando outra pessoa a usar o meu corpo. Era o meu batismo de palco, e eu percebi que de maneira curiosa, estava no lugar certo.

- “O homem, quando o enfadam os da casa, saindo, liberta o coração dos desgostos. Para nós, força é que contemplemos uma só pessoa. Dizem que nós vivemos em casa uma vida sem riscos, e eles a combater com a lança. Insensatos!” - Ao exclamar, senti a fúria de Medeia fazer com que meu corpo tremesse inteiro. – “Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha, a ser uma só vez mãe! Mas a vós e a mim não serve a mesma argumentação. Vós tendes aqui a vossa cidade e a casa paterna, a posse do bem-estar e a companhia dos amigos.” – Eu praticamente podia sentir o nojo dela, por ter de se contentar com as leis gregas. Aquela era a mais pura forma de criticar a realidade cotidiana da mulher oprimida, através da arte. – “E eu, sozinha e sem pátria, sou ultrajada pelo marido, raptada duma terra bárbara, sem ter mãe, nem irmão, nem parente, para me acolher desta desgraça. Apenas isto de vós quero obter: se alguma solução ou processo eu encontrar para fazer pagar ao meu marido a pena deste ultraje, guardai silêncio.” – Ao me dirigir ao público em pedido de cumplicidade, curvei-me para a frente em falsa reverência, ainda de cabeça erguida. Coloquei o dedo indicador em frente a boca da máscara, num pedido assustador de silêncio. Diminuí meu tom de voz, para que a frase seguinte soasse perturbadora quando dita. – “Aliás, cheia de medo é a mulher, e vil perante a força e à vista do ferro.” – Voltei ao falsete impetuoso, digno de uma vilã de cinema. – “Mas quando no leito a ofensa sentir, não há aí outro espírito que penda mais para o sangue.”

Erguendo-me diante da plateia, olhei para eles por mais alguns momentos, enquanto caminhava de costas em direção às cortinas. Subitamente, me virei de forma rápida, para que as vestes vermelhas esvoaçassem enquanto eu deixava o local e as luzes se apagavam. Quando as cortinas desceram, nem pude ouvir se havia ido bem ou mal. Eu estava exausto. Minha narcolepsia parecia nas alturas, e meus olhos ardiam devido ao estresse. Mesmo assim, eu estava feliz e extremamente surpreso. Ainda que eu não tivesse nenhuma condição de julgar, achava que tinha sido uma excelente Medeia. Talvez por conhecer o texto tão bem. Pude mudá-lo e resumi-lo livremente, o que deixou as coisas mais simples. Todos os sentimentos mais profundos, todas as facetas vingativas daquela mulher à frente de seu tempo... Eu sentira. Nunca havia experimentado tal sensação antes. Aquilo era maravilhoso.

De qualquer forma, achava que havia sido extremamente fiel ao estilo clássico. Ouso dizer, que talvez tenha sido o único a realmente valorizar as origens do teatro, e a entender a tarefa como ela havia sido imposta. Além disso, não fosse o suporte da Companhia Ketai, não sabia como poderia ter concluído a tarefa. Surpreendia-me que os outros não os tivessem utilizado. Bem, eles tinham amigos. Isso talvez explicasse. Tirei o figurino e peguei uma toalha úmida emprestada, que comecei a usar para remover a maquiagem do rosto e dos braços, enquanto voltava para o meu lugar. Agora, meus colegas me conheciam, antes mesmo que eu tivesse me apresentado formalmente a eles. Nervoso e sentindo-me novamente tímido, fui para meu cantinho no alto, onde minha bolsa me esperava. Limpando o rosto, aguardei até que outros se apresentassem, e para que o professor analisasse nossas performances. Independente do resultado, nada poderia pagar o que eu estava sentindo. Pela primeira vez, eu sentia que era bom em alguma coisa além de cantar. Música ainda era minha maior paixão. Mas talvez o teatro não tivesse sido uma escolha tão ruim, afinal...

Lari!


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Greeks








Mary se vestia adequadamente para uma peça grega, ou seja. como uma grega, óbvio. Mas não parava de refletir o quão irônico era. Na Grécia antigas mulheres eram proibidas, então homens faziam o papel de mulheres na peça. Tal fato a fazia rir, porque antigamente mulheres eram subjugadas e o homossexualismo era algo comum, hoje em dia a mulher continua subjugada, mas, o homossexualismo também é subjugado. A humanidade e seus eternos preconceitos a faziam revirar os olhos, pensando se algum dia a situação poderia melhor. Mas agora precisaria de foco, ajeita sua vestimenta vai para seu lugar no auditório, onde irá interpretar Antígone junto com Henry, seu amigo e cumprisse de ordem.

Ela ergue a cabeça, o fitando frente a frente, com assombro. Sua expressão é de orgulho pelo o que fizera, ela tinha certeza de que aquilo era o certo e não se arrependia nem um pouco, mesmo que por baixo daquele rosto de expressão orgulhosa existia medo, não existia arrependimento. E assim Mary assume seu papel de Antígone. – Confesso o que fiz! Confesse-o claramente. – Exclama pertinentemente, com a voz carregada de orgulho e coragem pela atitude da sua personagem e sem nenhum ressentimento.

(Henry como Creonte) Sou brevemente ignorada enquanto Creonte fala com o guarda, mas como dito anteriormente, infelizmente para Antígone, ele era breve. Logo a atenção dele se vira a ela, já lhe perguntando sobre as acusações, como se ela não soubesse de suas ordens.

– Sim, eu sabia! – Ela exclama sem ressentimento e tentando demonstrar o mínimo de medo, se possível, aplicando o tom necessário de ironia na frase seguinte, como queria diante ao óbvio. – Por acaso poderia ignorar, se era uma coisa pública?

(Henry como Creonte) Pergunta e Antígone se controla para não revirar os olhos, com mais uma pergunta óbvia, pois ela já tinha confirmado que cometera tal ato sem nenhuma objeção.

– Sim, porque não foi Júpiter que a promulgou; e a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infligir às leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a parti de ontem, ou de hoje são eternas, sim! – Antígone afirma com todo seu tom de confiança que tinha, pois acreditava fielmente no que dissera, sabia que enfrentaria consequências por se pega, então não tinha porque mais omitir o que pensava. – Tais decretos, eu que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham a punir os deuses! Que vou morrer, eu sei; é inevitável, e morreria mesmo sem a tua proclamação. E se morrer antes do meu tempo, isso será para mim, uma vantagem, devo dizê-lo! – Sua voz continua determinada, mas dessa vez com um tom de promessa, saberia que iria morrer então se sentia no direito de desafiar ordens de um homem. – Quem vive, como eu, no meio de tão lutuosas desgraças, que perde com a morte? Assim, a sorte que me reservas é uma que não se deve levar em conta; muito mais grave teria sido admitir que o filho de minha mãe jazesse sem sepultura; tudo o mais me é indiferente! Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura! – O acusa.

(Corifeu)Já irritado, Corifeu justifica os modos de Antígone como má criação, principalmente por parte do pai. Já ela acredita que sua atitude se deve a princípios nas quais ela ganhou, princípios esses que a faz acreditar inegavelmente certa.

– Visto que já me tens, presa, que mais queres tu, além de minha morte? – Cospe as palavras para Creonte, ainda se mantendo firme, mesmo depois das palavras ditas por Corifeu, que lhe fizeram revirar os estômagos e não a deixara se mexer nem um centímetro.

(Creonte) ”Nada mais! Com isso já me darei por satisfeito” Tais palavras causam a Antígone uma risada revolta.

– Por que, Pois? – Grita com Creonte, ela já não mais podia conter a raiva diante a situação e começa a sibilar em tom alto, de autoridade na qual não detinha. – Em tuas palavras, tudo me causa horror, e assim seja sempre! Também todos os meus atos te serão odiosos! Que maior gloria posso eu pretender do que a de repousar no túmulo de meu irmão? – Os olhos de Antígone já estão vermelhos, começava a lacrimejar, pois que ela se segurasse, a raiva era inevitável, não chorava por estar perto da morte, mas sim raiva do Creonte. Morrer não era mais um medo, talvez repousar no túmulo de seu irmão fosse um sonho. – Estes homens! – Diz indicando o coro de homens presente ali. – Confessariam que aprovam o que eu fiz, se o terror não lhes tolhesse a língua! Mas, um dos privilégios da tirania consiste em dizer, e fazer, o que quiser.

(Creonte) “Em Tebas só tu assim consideras as coisas”

– Eles pensam como eu. – Se aproxima mais de Creonte, como lhe tivesse desafiando, mostrando que suas palavras não a atingiria. – Mas, para te agradar, silenciam... – Fala baixa como Creonte, deixando sua voz quase que assustadora e fria.

(Creonte)”E tu não te envergonhas de emitir essa opinião?”

– Não vejo de que me envergonhe em ter prestado honras fúnebres alguém, que nasceu do mesmo ventre materno. – Antígone afirma com a voz em um tom mediano, onde deixava transparecer certeza e nenhum arrependimento de sua atitude. E juntamente a sua fala, sua postura se assume mais ereta firme. Apesar da certeza de que ninguém mais dentro daquela sala acreditava que ela iria demonstrar arrependimento em alguma, mas sim que iria afirmar sua posição de orgulho até sua morte.

(Creonte)”E por acaso não era teu irmão, também, o outro que morreu?”

–Sim! Era filho do mesmo pai, e da mesma mãe! – Afirma sem pesar em sua voz.

(Creonte) "Então por que prestas a um essa homenagem, que representa uma impiedade para com o outro."

- Asseguro-te que esse outro, que morreu, não faria tal acusação! – Exclama impassível, com sua postura ainda firme e sem deixar de encarar Creonte nem por um segundo, porque estava determinada a não deixar-se abalar com as palavras ditas por aquele homem.

(Creote) “Sim! Visto que só honraste, com tua ação, aquele que se tornou criminoso.”

– O que morreu também não era seu escravo, mas seu irmão! – Ela diz com um forte peso de acusação sobre sua voz, então se afasta um pouco dele, passa as mãos no cabelo, tentando o por no lugar, afastando as mexas do seu cabelo, tentando parecer mais equilibrada o possível e controlando a respiração para que ficasse ritmada.

(Creonte)”No entanto devastava o país, que o defendia.”

– Seja como for, Hades Exige que ambos se apliquem os mesmos ritos! – Defende Antígone, reafirmando seu pensamento, fechando os pulsos, tentando passar toda sua raiva para o aperto em sua mão, precisava se manter controlada para não cometer maior loucura. Ainda assim seu olhar sobre o homem continua frio e domado pela raiva por seu irmão.

(Creonte) “Não é justo dar ao homem de bem, tratamento igual ao do criminoso.”

– Quem nos garante que esse preceito seja consagrado na mansão dos mortos – Ela se aproxima rapidamente dele, olhando diretamente em seus olhos, dando uma risada irônica e fria, dando em seguida um sorriso igualmente louco.

(Creonte) “Ah! Nunca! Nunca um inimigo me será querido, mesmo após sua morte.”

– Eu não nasci para partilhar de ódios, mas somente de amor! – Antígone fala suavemente para Creonte, completamente debochando das palavras dele. E tão suave quanto sua voz, era a frieza que transpassava por ela, Antígone não se arrependeria do seu feito, nem um pouco e morreria por isso com orgulho.

tag: #Sokratis #Henry | notes: Antígone.

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Mensagem por Henry Daniel Grey em Dom Ago 09, 2015 11:43 pm

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Greeks

Aula de Teatro
Antígone

A ultima aula de teatro havia sido deveras interessante, então esperei que uma nova aula fosse semelhante no aproveitamento.

Mas hoje eu estava cansado, extremamente e mal havia conseguido prestar atenção no que estava sendo falado pelo professor ou apresentado nas performances anteriores a minha, com exceção da de Hanna que como sempre havia conseguido me mesmerizar.

...


Subi ao palco e fiquei ao centro, ao lado de Mary que havia concordado em participar da aula comigo, de um figurante qualquer e do professor que faria o papel de Corifeu. Olhei para o figurante que fazia o papel de guarda com um olhar de quem finalmente entende algo após ouvir sua parte da história. -Podes ir para onde quiseres, livre da acusação que pesava sobre ti! - exclamei, fazendo um sinal com a mão para que ele se retirasse, então dando meia volta encarei Antígone com um olhar superior. -Fala, agora, por tua vez. Mas sem demora! Sabias que por uma proclamação havia proibido o que fizeste? - ergui a voz para que demonstrasse um certo tom de indignação e contorci meu rosto em uma face de desgosto.

Levei a mão ao peito como se sua insolência tivesse me atingido fisicamente e dei um passo a frente, inclinando o rosto e falando em um tom muito mais baixo e de certa maneira tentando ser ameaçador. -E apesar disso, tiveste a audácia de desobedecer essa determinação? - perguntei inquieto, e em sua maioria inconformado por tamanha traição.

Olhei para corifeu e balancei a cabeça ponderando sua declaração após ouvir tamanha insanidade sair da boca de Antígone, como ousava citar os deuses após cometer tamanha ousadia ao enterrar o corpo de seu irmão e contrariando minhas ordens supremas? -Fica-o sabendo, pois que os espíritos mais rígidos são precisamente aqueles que se deixam abater! O ferro, tão duro, vem a ser quando aquecido o metal que mais facilmente pode se vergar e romper... -pausei apontando o dedo para sua face de forma acusatória. -Tenho visto cavalos fogosos que com um simples freio se subjugam. Não convém pois exibir um caráter altaneiro, quando se está a mercê de outrem. Esta criatura agiu temerariamente, desobedecendo as leis em vigor, e para agravar com uma segunda ofensa acaba de se gloriar do ato que praticou. Eu não seria mais um homem, e ela é que me substituiria se esta atitude ficasse impune. Mas seja ela filha de minha irmã, e portanto mais vinculada a mim do que o próprio Júpiter de meu lar, ela e sua irmã não escaparão a sorte mais funesta, porque acuso a outra de haver igualmente premeditado o enterro do irmão. - falei contra sua face e no final virando para um figurante ao canto do palco e fazendo sinal para que trouxesse alguém. -Chamai-a! Eu a vi no palácio a pouco, desvairada e fora de si! Muitas vezes o espirito que pensa em executar uma ação perversa se deixa trair por sua pertubação antes de realizá-la! Mas detesto também aquele que culpado de um crime procura dar a este um nome glorioso. - encerrei com um tom de decepção e ainda entregando a Antígone o mesmo olhar acusatório.

-Nada mais! Com isso já me darei por satisfeito. - respondi, afinal sua morte era o minimo que poderia fazer já que ela havia ousado me contrariar. Soltei um riso desacreditado quando a ouvi gritar comigo, seria ela alguma espécie de insana que desejava a morte com tanto desejo? -Em Tebas só tu assim considera as coisas. - coloquei um sorriso irônico no rosto ao vê-la se aproximar. -E tu não te envergonhas de emitir essa opinião? -falei franzindo o cenho levemente ao notar que realmente ela não parecia se arrepender de tal ato. -E por acaso não era teu irmão também aquele que morreu? - perguntei deveras curioso com a resposta que ela me daria e que no fundo seria o motivo de sua morte. -Então porque prestas a um essa homenagem, que representa uma impiedade para com o outro? - perguntei, abusando de sarcasmo na palavra homenagem. -Sim! Visto que só honraste com tua ação, aquele que se tornou criminoso. - continuei a insistir, tentando descobrir porque tamanha teimosia. -No entanto devastava o país que o outro defendia. - disse de uma maneira próxima ao nojo por lembrar de tamanhas barbáries.

-Não é justo dar ao homem de bem um tratamento igual ao do criminoso. - falei tentando impor por uma ultima vez um pouco de juízo em sua cabeça. -Nunca! - gritei cheio de ira, a coloração vermelha se apoderando de minha face. -Nunca um inimigo me será querido, mesmo após sua morte. - praticamente rosnei contra o rosto de minha cativa. -Desce pois a sepultura! Visto que queres amar, ama aos que lá encontrares! Enquanto eu vivo for, nenhuma mulher me dominará! - respondi ajeitando minha túnica e dando as costas para aquela que em breve seria apenas mais uma carcaça para os abutres antes que acabasse por desferir eu mesmo o golpe final.

...


Agradeci ao professor por sua presença no palco e dei um hi-five na mão de Mary antes de sem tirar a túnica grega seguir para meu lugar e aguardar pelas palavras do grego. Olhei de relance a loira do outro lado do auditório e sorri bobo antes de tentar disfarçar olhando para o palco.


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Mensagem por Noah Braückeroux em Seg Ago 10, 2015 12:08 am

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Data de inscrição : 20/06/2015

Egyptians
                                 íon
O despertador toca, e Noah é obrigado a levantar. Da última vez faltara à todas as suas aulas importantes, exceto Teatro, neste dia teria de ir à todas, ou reprovaria o ano, o que causaria a perda de seu título como líder da ordem. A eleição o deixara um caco, mas fazer o que?

Com passos calmos, ele se dirigiu ao banheiro, onde tirou sua cueca boxer preta com listras brancas, jogando-a no cesto de roupas sujas. No fim de semana ele teria de levar suas roupas na lavanderia, pois o cesto já estava quase cheio outra vez. Assim era toda semana. Entrou no box do banheiro e tomou um banho não muito demorado, uma de suas filosofias era que nada deveria ser feito com pressa, a calma leva a perfeição, diz o ditado. E, saindo dali, secou-se rapidamente, indo na direção da pia e escovando os dentes. Depois de ter feito sua higiene matinal, andou até o quarto outra vez, onde colocou roupas comuns, uma camiseta branca com uma estampa em letras presas, numa fonte caixa alta, onde se lia as seguintes consoantes e vogais: FNO e logo abaixo: CRN. Essas iniciais indicavam Fauno e Corona, ambos, banda e EP favoritos do faraó. De quebra, colocou uma calça jeans escura e seus tênis all-star branco e preto de couro, juntamente com uma meia socker igualmente branca, sem qualquer estampa. Buscou sua mochila ao lado da escrivaninha, mochila qual já estava arrumada para o dia que viria e saiu do quarto, trancando a porta.

A passos rápidos, Noah sai da sede de sua ordem, acenando e sorrindo para um colega o outro, era sempre bom ser simpático com as pessoas, elas retribuíam. Andando com certa pressa, até o edifício principal, e subindo até o segundo andar, em direção ao Auditório, onde Sokratis Papastadopoulos, um grego realmente bonito dava suas aulas. Noah então entrou no local, e sentou-se um pouco afastado das pessoas, ele gostava assim, recatado nas aulas, para que pudesse bem se concentrar.

Alguns anos atrás, os pais de Noah o levaram para a Grécia, e ele realmente não gostara. Claro, o país era um paraíso, e sua mitologia, nem se fala, mas o modo como as pessoas falavam, como o tratavam, nada amistoso. O professor Papastadopoulos apresentava uma tragédia grega, uma específica, qual ele não gostava muito, mas mesmo assim, aplaudiu ao fim, e ávidamente ouviu a explicação da aula. Droga, Noah teria de apresentar uma tragédia.

Quando o professor terminou a explicação e jogou os papéis no palco, Noah deixou sua mochila de lado e pegou uma tragédia qual ele já conhecia. Íon, de Eurípedes. Noah não tinha tanto interesse pela aula sobre gregos, e pensava em substituir Teatro por Astronomia quando o ano letivo terminasse, mas ainda assim, teria de ter notas excelentes. Enquanto repassava o roteiro a si mesmo, assistiu algumas das apresentações de seus colegas, e eles eram realmente bons.

Logo depois que Henry Grey, um grego, descera do palco, Noah subira para os fundos, para se trocar. Colocou uma túnica grega que ia mais ou menos até pouco antes de seu joelho, sapatilhas antigas e uma coroa de louros. Foi até o palco e pediu que uma das atrizes que viera, para ser coadjuvante de Sokratis subisse, ele precisaria de ajuda para o ato, passagem qual Íon teria uma conversa com Creúsa. A garota subiu e o faraó a conduziu até os fundos falando:

— Você conhece Íon, não é? Preciso que interprete Creúsa. - E ao terminar a frase, a garota faz uma cara engraçada, como se ele estivesse falando besteira.

— Íon é meu favorito, então sim, eu conheço e sei todas as falas. Prazer, me chamo Julie, e já sei o seu nome, não se apresente, temos pressa. - Ela corre para se trocar, e volta com uma túnica rosada, toda empertigada. E juntos, ambos os jovens sobem ao palco. Ela primeiramente, e Noah, logo depois, falando em altos brados, com uma voz um pouco mais grave, para que interpretasse bem seu personagem:

— És nobre, o teu porte anuncia-o, quem quer que sejas, ó mulher. Assim, a maior parte das vezes, pela simples aparência se mede a qualidade da estirpe. Ah! Mas tu impressionas-me! Fechas os olhos e umedeces de lágrimas a tua nobre face, à vista do sacro santuário de Lóxias! Qual o motivo dessa aflição, mulher? Todos os que olham a mansão divina se alegram, e os teus olhos derramam lágrimas? - Agora já estava um pouco mais perto dela, e com um olhar encantador, ela falava a fala de Creúsa:

— Revelas fina sensibilidade, ó estrangeiro, ao surpreenderes-te com as minhas lágrimas. A verdade é que eu, olhando a morada de Apolo, evoquei uma antiga recordação. O meu corpo estava aqui, mas o meu pensamento estava no meu país. Ó desventuradas mulheres! Ó ações reprováveis dos deuses! Onde é que havemos de ir buscar justiça, se perecermos pelas injustiças dos divinos Senhores? - Era visível a sensibilidade que ela falava, então, Noah retornou com sua fala de Íon.

— Que dor secreta te atormenta, mulher? - Ele agora colocava sua mão no ombro de Julie, com um olhar acolhedor.

— Nada; já depus o meu arco. Com respeito a isto, calo-me, e tu não penses mais no assunto. - Ela agora afastava a mão de Noah de seu ombro, interpretando a personagem realmente bem.

— Quem és tu? De que terra vens? De que raça nasceste? Com que
nome devo chamar-te?
- Ele falou, levantando um pouco o rosto e olhando Julie de cima.

— Creúsa é o meu nome, de Erecteu nasci, e a minha pátria é a cidade dos Atenienses. - As falas de Julie eram entoadas como ordens, embora tristes, o ato fazia com que Noah não quisesse mais desistir de Teatro, fazia com que Noah quisesse Teatro como sua atividade principal, assim dizendo, o fazia querer ser um ator no futuro, não um reles jogador de Rugby.

— Ilustre é a tua cidade e nobres são os teus pais. Como te venero, ó mulher! - Parecia errado chamá-la de mulher, como se de alguma forma ela fosse inferior, mas era assim a vida na Grécia Antiga, era um mundo feito para os homens, quem não tinha um pênis, deveria estar à própria sorte.

— Até aqui, não mais além, ó estrangeiro, vai a minha felicidade. - Julie completou, com sua fala.

— Pelos deuses, é realmente verdade o que se conta? - Noah disse.

— Que perguntas, estrangeiro? Que queres saber?

— O teu antepassado, pai do teu pai, nasceu da Terra? - A pergunta de Noah era totalmente surreal para o mundo moderno, mas parecia comum para o passado, uma divergência de épocas trazia confusões.

— Sim, Erictônio; mas a forma do seu nascimento nada me serve. - Respondeu Julie, como se fosse a coisa mais óbvia existente, andando um pouco para o lado, notei de cara que estávamos muito parados, como se nada adiantasse as falas.

— É verdade que Atena o recolheu da terra? - Outra pergunta. Deuses, o que tudo tinha a ver com a terra?

— Sim, em seus braços virginais, sem o ter concebido. - Julie falou. Uma deusa virgem, concebendo criaturas da terra. Puro mito.

— E deu-o, como é vulgar ver representado em pinturas...? - Fala Noah.

— Às filhas de Cécrops para cuidarem dele, mas sem o verem. - A voz de Julie entoou pelo local, a acústica do auditório era incrível.

Dando certas voltas ao redor de Julie, ele colocou as mãos nas costas, cruzando-as e falando, seu rosto mexia a cada letra que falava, como se tudo fosse um relógio, trabalhando em prol do tempo.

— As donzelas abriram, ouvi dizer, o cesto da deusa. - Quase no fim, Noah e Julie sabiam disso.

— Por isso, a sua morte manchou de sangue o cimo do rochedo. -Fim. Julie terminou a história com certo pesar, assim como começara, e Noah, transmitindo o mesmo sentimento, virou-se para a platéia, e a dupla fez uma mesura, dando as mãos.

Voltando aos fundos do palco, Noah agradeceu a garota, e ela sorriu. Ele não sabia o que isso queria dizer, e nem deveria, talvez. Sorrisos são para todos. Colocando sua roupa comum outra vez e abandonando o figurino, Noah desceu para o palco. Eles eram os últimos, e a aula se encerrara. Dando de ombros, ele buscou sua mochila nas últimas cadeiras e saiu dali. Não tinha a menor intenção de ficar para ajudar à arrumar a bagunça.
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